Todos conhecemos Lula há muitas décadas. O seu perfil, as suas características e a sua personalidade já fazem parte da paisagem pública brasileira há tanto tempo que dificilmente, aos oitenta anos, nos surpreenderá com algum comportamento totalmente desconhecido. No entanto, a forma como uma parte da sociedade o enxerga continua a ser moldada não pelo que ele é, mas pelo temor que foi incutido ao longo dos anos.
A oposição aos seus governos construiu metodicamente a imagem de uma ameaça existencial: repetia-se à exaustão que ele implantaria o comunismo, fecharia as igrejas, destruiria a economia e ruiria os pilares da sociedade. Ao longo de três governos nada disso aconteceu. Mas o medo, uma vez plantado, criou raízes profundas. Lula é aquele animal que desperta pavor em alguns que o observam de longe, mas que, na essência, está longe de ser a fera devoradora que pintam. Trata-se, em suma, de um lobo cinzento.
Na cultura ocidental o lobo carrega o fardo imerecido do “Lobo Mau”. É o predador implacável dos contos de fadas, pintado como um monstro insaciável cuja única intenção é devorar tudo o que vê pela frente. Esse é o reflexo exato da caricatura política construída por seus críticos: a projeção de um perigo iminente, amplificado para gerar pânico e manter o rebanho acuado.
Contudo, a biologia do lobo cinzento real conta uma história completamente diferente e muito mais alinhada com a verdadeira natureza do político brasileiro. Na natureza, o lobo cinzento é um animal extremamente cauteloso, que não tem interesse em destruir o mundo ao seu redor; o seu foco é a sua sobrevivência e a manutenção da sua estrutura social.
Dentro de sua alcateia, o lobo revela a sua verdadeira face: é um animal profundamente gregário, leal aos seus pares, brincalhão com os seus e focado na proteção do grupo. A dinâmica de sua liderança baseia-se na coesão e na articulação familiar, e não em uma carnificina cega. Quem o observa de dentro do núcleo familiar ou político não enxerga o monstro dos mitos, mas sim uma figura afável, social e perfeitamente integrada à convivência comunitária. Ele é um animal social, moldado pela matilha que construiu, perfeitamente adaptado ao ambiente em que vive e muito mais preocupado em preservar o seu território (o Brasil) do que em devorar quem quer que seja.
Em contrapartida, à medida que o cenário político se desenha para o futuro, novos personagens entram em evidência, exigindo da sociedade um olhar mais atento e crítico. Se por um lado conhecemos figuras longevas e perigosas que aprenderam a navegar pelas regras do ecossistema, como Ronaldo Caiado, por outro deparamo-nos com alternativas desconhecidas cujo perfil vai se revelando aos poucos. E sempre de maneira preocupante. É o caso de Flávio Bolsonaro, cuja trajetória e forma de atuar evocam uma imagem muito distinta e desconfortável: a da hiena.
Diferente daquele que constrói sua base na articulação aberta e na convivência prolongada dentro das cercas institucionais, o perfil que se projeta a partir desse nome é o de quem opera nas margens, amparado pela força e pela proteção de um clã familiar. À medida que o escrutínio público avança e a luz da fiscalização incide sobre suas ações, a fachada cuidadosamente construída começa a ruir. O que se constata é um padrão recorrente de falta de ética, de falta de compromisso com a honestidade e uma facilidade impressionante para sustentar narrativas inverídicas, mentindo mesmo quando confrontado com provas que o desmascaram em seguida.
No ecossistema natural, a hiena é frequentemente associada à estratégia de espreita, ao oportunismo e à dependência de uma estrutura de grupo para intimidar e avançar sobre o que não lhe pertence por mérito próprio. No campo político, essa metáfora traduz-se no modo de operar desse grupo: a utilização das brechas do Estado, a erosão sistemática da confiança pública, a corrupção e o desrespeito crônico pelas normas republicanas.
O verdadeiro perigo que esse perfil representa, caso venha a ocupar o posto máximo da República, não é apenas o da instabilidade gerada por discursos falsos ou pela fragilidade ética individual. O risco é institucional. Trata-se da ameaça real de que as ferramentas do Estado sejam instrumentalizadas não para o bem comum, mas para a garantia de privilégios de um clã, enfraquecendo os freios e contrapesos que sustentam a própria democracia. Afinal, a hiena é covarde, mas se o lobo se distrair, sempre em grupos, ela o ataca e elimina.
Assim, enquanto a política lida com os dilemas de figuras moldadas pelas regras antigas da floresta, a ascensão de perfis alinhados a essa lógica de rapina e dissimulação coloca a sociedade diante de um alerta urgente: o perigo daqueles que rondam as instituições não para habitá-las, mas para consumi-las por dentro.
(imagem gerada por IA)