Vi dois comentários sustentando que o objetivo de Tariflávio e de seus asseclas, diante da sucessão de escândalos que vêm surgindo semana após semana, já não seria propriamente vencer a eleição presidencial. Lula aparece como favorito em diversos cenários divulgados pela imprensa e tem resultados concretos a apresentar após três anos e meio de governo. Já Tariflávio segue atolado em denúncias de corrupção e recorre com frequência a mentiras na cara dura que acabam facilmente desmentidas.
A meta dele, ao que tudo indica, seria outra: consolidar-se como a principal liderança do bolsonarismo e manter viva a chama política do pai.
Dentro dessa lógica, ele deve contar com uma eventual colaboração de Donald Trump para tentar tumultuar o processo eleitoral e criar um ambiente propício à ruptura institucional. Por isso, não demonstraria tanta preocupação imediata com o resultado das urnas.
Os sinais são claros. As recentes declarações de Tariflávio contra as urnas eletrônicas, somadas à decisão de dispensar a escolta da Polícia Federal, parecem integrar uma estratégia destinada a preparar o terreno para contestar uma eventual vitória de Lula. O episódio do vídeo do pai, feito por IA, em claríssimo desrespeito à decisão de Alexandre de Morais e à legislação eleitoral, demonstra o desprezo ao processo eleitoral. Em sua formulação mais extrema, essa hipótese incluiria até mesmo a possibilidade de uma tentativa de atentado, reeditando a famosa facada de seu pai que possibilitou sua, até então, improvável eleição em 2018.
Essa interpretação ganha força diante do comportamento de Eduardo Bolsonaro, que continua adotando um discurso muito mais radical do que o do irmão, e sobretudo de Paulo Figueiredo, cujas manifestações frequentemente inviabilizam os esforços de Tariflávio para construir uma imagem mais moderada, especialmente junto ao eleitorado feminino. Agora, Figueiredo dá mais um passo nessa escalada ao atacar a imprensa, em particular jornalistas mulheres, a quem chama de “prostitutas”, e chega ao absurdo de afirmar que não estupraria Miriam Leitão porque “ela não merece”, reproduzindo a mesma lógica utilizada por Jair Bolsonaro contra a deputada Maria do Rosário em 2014.
Há quem sustente, ainda, a hipótese de uma articulação envolvendo Tariflávio, Donald Trump, Marco Rubio e o ministro Nunes Marques. O objetivo seria, num primeiro momento, criar condições para lançar dúvidas sobre a legitimidade do processo eleitoral e, posteriormente, caso Lula saia vencedor, tentar caracterizar o resultado como fraudulento e pressionar por sua anulação.
Também merece destaque o fato de que a candidatura do suposto “moderado” perdeu apoio em setores que anteriormente lhe eram favoráveis. A Faria Lima, boa parte da imprensa tradicional e partidos como PP, União Brasil e Republicanos já desembarcam da candidatura. Portanto, Tariflávio dependeria cada vez mais de apoio externo e da mobilização de sua base mais radicalizada.
No conjunto, o que se desenha não seria apenas uma disputa eleitoral convencional, mas um projeto político que atuaria simultaneamente em diversas frentes: construção de narrativas, disseminação de desinformação, vitimização calculada, ataques coordenados à imprensa, tensionamento das instituições e preparação psicológica de uma parcela do eleitorado para rejeitar qualquer resultado que lhe seja desfavorável. Enquanto Tariflávio procura vestir a fantasia da moderação, seus aliados mais estridentes pavimentam o caminho da radicalização. Nessa perspectiva, essa aparente divisão de papéis estaria longe de ser acidental.
Se tal estratégia prosperará ou não dependerá da capacidade de reação das instituições brasileiras, da vigilância da sociedade civil e da firmeza com que imprensa e órgãos de controle responderem às investidas contra o processo democrático. Ignorar esses sinais, porém, pode significar subestimar um movimento que, segundo essa interpretação, busca desacreditar o sistema eleitoral, instaurar um ambiente permanente de suspeição e, em última instância, criar justificativas para contestar o resultado das urnas.
Nesse contexto, uma vitória de Lula já no primeiro turno reduziria significativamente o espaço para contestações e dificultaria a construção de narrativas voltadas à deslegitimação do pleito. Caberia, então, à militância intensificar a atuação, especialmente nas redes sociais, destacando as realizações do governo e reforçando a importância da estabilidade institucional. Afinal, uma ruptura democrática produziria consequências profundas para o país, com prejuízos que ultrapassariam em muito as fronteiras partidárias ou ideológicas.
Resta saber se o Brasil, depois de tudo o que já viveu, permitirá que esse roteiro volte a se repetir ou se, desta vez, imporá limites mais claros àqueles que insistem em tensionar as regras do jogo democrático.