No lançamento de sua candidatura, no histórico Estádio 1º de Maio, em São Bernardo, Lula lembrou dois episódios que revelam um contraste doloroso. Nos tempos da ditadura, quando estava preso, o delegado Romeu Tuma o liberou para se despedir da mãe, falecida. Décadas depois, já em plena democracia, foi impedido de comparecer ao velório do irmão por decisão de Dias Toffoli, ministro do STF que ele próprio havia indicado. Essa lembrança expõe uma ferida ainda aberta: a sensação de que, mesmo em liberdade política, lhe foi negado um gesto humano essencial. Convém lembrar que Toffoli não tinha a obrigação de retribuição, mas poderia ter tomado uma decisão humanitária. Hoje, Nunes Marques e André Mendonça decidem tudo em favor da família Bolsonaro, como retribuição às suas indicações. Em sua fala, ao deixar de lado a figura do político para falar como um ser humano sensível, Lula expôs o paradoxo de nossas relações.
Esse contraste poderoso mostra como a dor não se mede apenas pelo contexto histórico, mas pela ausência em momentos cruciais. Na ditadura, Lula pôde viver o luto; na democracia, foi privado dele. É como se a vida nos lembrasse que as mágoas mais profundas não vêm apenas da repressão, mas também da quebra de confiança em quem acreditávamos estar ao nosso lado. E essa essência se estende diretamente às nossas próprias histórias.
Quando um amigo nos trai ou, em vez de nos ajudar na hora da necessidade, escolhe ignorar ou fingir se importar, o sofrimento se instala. A mágoa não nasce apenas do ato em si, mas do contraste entre expectativa e realidade. Esperávamos apoio e recebemos silêncio ou hipocrisia; esperávamos presença e recebemos ausência. Assim como Lula guarda a lembrança amarga de não ter podido se despedir do irmão, nós também guardamos as marcas de quem nos faltou quando mais precisávamos.
Essas experiências moldam nossa forma de confiar novamente. Elas nos tornam mais cautelosos e desconfiados, mas também mais conscientes da importância da lealdade. Porque, no fundo, o que mais dói não é apenas a injustiça ou a traição, mas o vazio que elas deixam: o abraço que não aconteceu, a palavra que não foi dita, a presença que se negou.
No fim, a fala em São Bernardo não foi apenas sobre política, mas sobre humanidade. Ao relembrar o gesto de Romeu Tuma na ditadura e a negativa de Toffoli na democracia, o presidente sintetizou o paradoxo das relações humanas: às vezes, quem menos esperamos nos oferece apoio, e em quem mais confiamos nos nega.
Assim como ele carrega a dor de um luto negado, cada um de nós carrega suas próprias cicatrizes. Essas lembranças nos acompanham e nos lembram, todos os dias, que a lealdade e a presença verdadeira são os maiores gestos de humanidade.
Porque, no fim, não são o poder ou a posição que definem quem somos, mas a capacidade de estar ao lado de quem precisa. É nesse gesto simples, de estar presente, que se revela a verdadeira grandeza de um ser humano.