PREFÁCIO
Guerreira e honesta, Dilma foi uma presidenta injustiçada
Primeira mulher eleita presidenta do Brasil, Dilma Vana Rousseff chegou ao Palácio do Planalto depois de se destacar como ministra de Minas e Energia e depois chefe da Casa Civil do presidente Lula, coordenando os grandes programas e as principais políticas públicas dos primeiros governos do PT, com destaque para o Luz pra Todos, que iluminou o interior do Brasil, o Marco Regulatório do Pré-sal, garantindo que a riqueza do petróleo fosse revertida em benefício do povo e do país, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que levou grandes obras de infraestrutura para todo o país, e o programa habitacional Minha Casa Minha Vida. Dedicada e exigente, comandou com mãos firmes as ações, deixando a marca de sua competência e seriedade no trato com a coisa pública.
A força de Dilma vem de longe. Na juventude enfrentou um dos piores períodos da República, a ditadura militar, que derrubou o presidente João Goulart e afundou o país no conservadorismo, na restrição das liberdades e na repressão. Resistiu às torturas dos porões militares e se formou em economia, iniciando a carreira política no PDT e posteriormente filiando-se ao PT.
Em seu primeiro governo, a presidenta ousou confrontar o sistema financeiro ao adotar uma política de juros baixos para os bancos públicos, barateando o crédito para o povo, aprovou a Lei de Acesso à Informação, que rendeu prêmio internacional de transparência pública, modernizou e ampliou os aeroportos e portos, criou o Mais Médicos e ampliou políticas de saúde, da educação, habitação, de proteção ao meio ambiente e políticas para enfrentamento à violência e proteção às mulheres.
Em 2013, as jornadas de junho que levaram milhões às ruas agitaram o país. Havia um clima de insatisfação e de criminalização da política e dos movimentos sociais, e a classe dominante e a direita enxergaram a oportunidade para desestabilizar o governo Dilma e criar uma narrativa distorcida diante da profusão de reivindicações desconexas. Como resposta, foram enviadas ao Congresso Nacional propostas nas áreas de saúde, transporte, contra a corrupção e até mesmo de uma nova constituinte, o que não foi suficiente para atender e acalmar os anseios. De fato, a direita soube aproveitar o movimento nas ruas para manipular a opinião pública, fato que mais tarde vinha a ser comprovado com as denúncias sobre o vazamento e utilização de microdados de plataformas das redes sociais.
As adversidades eram muitas, as primeiras denúncias da Operação Lava Jato, que investigava desvio de recursos nos contratos da Petrobras e uma crise econômica que se avizinhava. Mesmo assim, Dilma foi reeleita em 2014. Avessa à politicagem miúda, foi alvo de críticas e boicote da base aliada comandada por Eduardo Cunha, eleito para a presidência da Câmara. O golpe já começava a ser armado nos bastidores políticos de Brasília, tendo o PSDB e MDB e o próprio vice Michel Temer como principais articuladores. Aécio Neves deu o tom com agressivo discurso contra Dilma e o PT, questionando o resultado das eleições. Pautado pela Lava Jato, o tucano argumentou que as campanhas do PT teriam sido financiadas com dinheiro de corrupção, o que tornaria a eleição de Dilma “ilegítima”.
A Lava Jato foi o principal instrumento usado para desestabilizar o governo, com participação preponderante da grande mídia que alçou o então juiz Sergio Moro a herói nacional e colocou Lula e o PT como os vilões da corrupção, com anuência fiel do Ministério Público e Judiciário. A ofensiva foi grande e a narrativa da Força Tarefa ganhava cada vez mais espaço, era como um poder paralelo, vazamentos das investigações para imprensa amiga, informações editadas e truncadas, versões manipuladas, o show midiático dos procuradores de Curitiba, tudo isso foi degradando o cenário político.
A economia, em crise internacional, começou a afetar o Brasil e a presidenta Dilma viveu tempos difíceis. Adotou várias medidas para enfrentar os problemas, mas muitas delas foram implodidos pelas pautas bombas urdidas por Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados. Também lançou mão de medidas amargas, contrariando sua própria base social. Com a derrocada econômica, a pressão aumentou, os aliados governistas estavam sedentos, ministros foram trocados e o vice Michel Temer e sua turma chegaram a ser colocados dentro do Palácio do Planalto para cuidar da articulação política. Nada deu certo, Eduardo Cunha cuidou de fazer chantagens e iniciar o golpe.
Em 2015, nada passava no Congresso. Como Dilma mesmo disse, não governou nesse ano. Houve uma verdadeira sabotagem às propostas e medidas enviadas ao Parlamento, aliados foram um a um traindo e desembarcando. O clima do impeachment esquentava embalado na onda da Lava Jato e nas manifestações da direita, que remetiam à “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que em 1964, ocupou as ruas de São Paulo contra as reformas de base, propostas por Goulart e em defesa da legalidade e da democracia. Ao longo de 2015, enquanto as denúncias na Petrobras pululavam nas televisões e outras mídias, foram quatro grandes atos patrocinados pela elite financeira e empresarial, na Avenida Paulista, com direito até à champagne, dancinhas e discursos de ódio.
Em paralelo, as denúncias de corrupção que atingiam o presidente da Câmara andavam rapidamente e o emedebista foi parar no Conselho de Ética. Contrariado com os votos dos deputados petistas, se vingou autorizando a abertura do processo de impeachment contra Dilma, cuja peça alegava que a presidenta cometeu “pedaladas fiscais”, o que foi prontamente bancada pelos tucanos. Especialistas e até mesmo os arrependidos de hoje admitem que não havia crime, armou-se um golpe jurídico-parlamentar.
Lá se vão mais de cinco anos e a verdadeira história está sendo recontada, uma hora ou outra a verdade vence e justiça é feita. Honesta, a presidenta foi inocentada em todas as ações judiciais impetradas contra ela. No discurso de despedida, no Palácio da Alvorada, Dilma profetizou as consequências do golpe sem crime de responsabilidade e misógino. Era contra o povo brasileiro, contra a nação e iria levar o país ao retrocesso e ao caos social. “O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social”.
De lá para cá, foram se esvaindo todos os direitos, a proteção de leis trabalhistas e aposentadoria justa, assim como as garantias de acesso à moradia e à terra, houve corte de recursos da educação, saúde e cultura, e nas políticas de igualdade racial, da comunidade LGBTQIA+, de combate à violência contra as mulheres, com destaque para os atentados às comunidades indígenas e ao desmonte dos mecanismos de proteção ambiental.
Ao longo do processo de impeachment, a presidenta demonstrou firmeza e altivez diante das traições e da iminente derrota. Com dignidade, sabia o caminho que seguia e não se deixou abater por mais que aqueles momentos fossem muito difíceis. Deixou a Presidência da República de cabeça erguida para depois ser referência internacional no debate sobre a democracia, o avanço da direita e o conluio da Lava Jato.
Desde então a democracia vem sendo afrontada a todo instante, assim como as liberdades, a livre manifestação e de expressão. Logo depois do golpe, Temer deu início à agenda neoliberal, aprovando o fatídico teto dos gastos, que congela por 20 anos os investimentos nas áreas sociais e a reforma trabalhista que retirou direitos dos trabalhadores e enfraqueceu a Justiça do Trabalho. A mudança do marco legal da exploração do pré-sal e a venda de ativos e estatais foram sendo implementadas a todo vapor, esvaziando a soberania nacional. Não ia ficar pedra sobre pedra como bem falou Dilma, jogaram fora 13 anos de conquistas: a redução da miséria e da pobreza, a ascensão da classe média, a valorização do salário mínimo, o desenvolvimento inclusivo do país.
O impeachment foi o caminho para levar o Brasil ao neoliberalismo e a interdição de Lula em 2018 veio para coroar o golpe. Preso injustamente o presidente mais querido e bem avaliado do Brasil, abriu-se o espaço para Bolsonaro aprofundar drasticamente o retrocesso. O pior presidente da República que já tivemos fechou uma aliança com o liberalismo econômico e depois com centrão no Congresso Nacional, implementado assim a pauta vaticinada por Dilma em seu discurso de defesa no Senado da República. Com uma trágica gestão na pandemia do coronavírus, o Brasil foi transformado num grande celeiro para a infecção espalhar, deixando milhares de mortos e sequelados. E a democracia vem sendo afrontada a todo instante por um presidente criminoso quem vem desmontado o Estado brasileiro ao seu bel prazer e em detrimento do povo.
O livro DILMA – A Sangria Estancada traz 76 textos do autor Fernando Castilhocom percepções pessoais sobre esse difícil período que afetou drasticamente o país. A frase “tem que mudar o governo para estancar a sangria” é a cara do golpe e mostra que a presidenta não ousou em nenhum momento interferir nas investigações da Polícia Federal, que era independente e foi fortalecida pelos governos do PT. Dilma foi parada porque representava um projeto que desagradava o andar de cima da sociedade. E o resultado é isso que estamos vendo, o país sendo levado à decadência social e econômica, com alto índice de desemprego e a volta da fome e da pobreza no país. No lugar do avanço progressista que estava em curso nos anos PT, vieram a intolerância, o estímulo à violência, a mentira e o discurso de ódio.
Em meio ao cenário desastroso, a esperança voltou a soar com a inocência de Lula, resgatada no Supremo Tribunal Federal (STF), vencendo o lawfare praticado contra ele e o PT, numa vitória da justiça e do Estado Democrático de Direito. Tentaram a todo custo matar o Partido dos Trabalhadores, mas somos forjados na luta e resistimos bravamente às intempéries e tempos duros. Provamos que estávamos do lado certo da história e que a verdade viria à tona uma hora ou outra. Com Lula inocente, disparando nas pesquisas de opinião para 2022, o horizonte é de esperança, de que é possível reconstruir o país. Deixamos um legado dos nossos governos que está vivo na memória dos brasileiros, e é essa saudade que nos alimenta e nos dá força para seguirmos resistindo ao neofascismo bolsonarista e a lutar pela democracia e por dias melhores para o Brasil e seu povo.
Agora, precisamos resgatar a justiça para Dilma perante a história, lutando para que a fraude do impeachment que sofreu, o golpe midiático parlamentar, seja devidamente anulado. Só assim o Brasil reencontrará seu caminho para uma democracia forte e duradoura.
Gleisi Hoffmann, deputada federal pelo Paraná e presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores