Por volta de 70 mil anos, está se iniciando uma revolução na evolução humana que um dia será chamada pelos estudiosos de Revolução Cognitiva. Já somos, embora não tenhamos nenhuma consciência disso, Homo sapiens, por já termos desenvolvido um pouco a linguagem oral e gestual.
Vagamos diariamente por algumas áreas bem espalhadas no planeta, com nossa tribo, sem carregar nenhum bem material, às vezes por anos a fio sem cruzar com outros contingentes, uma vez que a população na Terra ainda é muito escassa. Um ser humano nômade como eu pode nascer e cumprir todos os estágios de sua curta vida morrendo de velhice sem jamais encontrar outra tribo.
Nós, os primeiros seres humanos, nas noites com poucas nuvens, nos sentamos com nossa tribo em volta de uma fogueira acesa numa clareira para nos aquecermos e espantarmos as feras selvagens. Temos, assim, alguma segurança para dormir.
Ao olharmos para o céu limpo deste tempo, vemos a Lua, as estrelas e um imenso aglomerado prateado delas que, milênios mais tarde, os homens chamarão de Via Láctea, em todo o seu esplendor com muito mais nitidez do que no futuro distante, já que ainda não há a poluição atmosférica que um dia envolverá todo o planeta. Também não há o ruído de fundo que em outras épocas os seres humanos estarão habituados a ouvir. Portanto, o silêncio predomina. Ficamos a imaginar a grandeza de tudo isto e nossa enorme limitação física que nos impede de alcançar as estrelas e toda esta imensidão.
As sombras projetadas pela fogueira dançam, sinuosas e misteriosas, ao encontrarem as rochas e o solo, formando figuras que parecem viver por si mesmas. As folhas das árvores sussurram baixinho, agitadas por um vento que assobia alto, como se o próprio ar tivesse algo a contar.
Pequenos roedores, furtivos em seus passos, provocam o farfalhar das folhas caídas, criando sons que, à medida que se misturam ao silêncio, parecem quase parte do ambiente noturno. Ao longe, lobos uivam, quase como um coro primitivo, seus gritos preenchendo a noite com uma sensação de urgência, como se chamassem a Lua para uma conversa secreta. E, de vez em quando, um relâmpago distante corta o céu, iluminando as trevas por um breve segundo, seguido de um trovão que parece ressoar nas entranhas da Terra. Nesta noite a chuva não cairá.
No vasto manto de estrelas que se estende sobre nós, há mais do que a simples beleza da imensidão celeste. Estrelas cadentes — ou, como chamarão mais tarde, os meteoroides — riscam o firmamento, desaparecendo rapidamente, como se fossem sinais de algo além da nossa compreensão. Todos nós, juntos, acompanhamos suas trajetórias com o olhar, imaginando onde cairão, o que elas significam, o que estão tentando nos dizer.
Este cenário — com sua calma estranha e sua energia contida — parece nos dizer que há algo além da luta diária pela sobrevivência. Algo está acontecendo ali, no brilho da fogueira, no movimento das folhas, no uivo dos lobos, nas estrelas cadentes. E esse algo é tão grande, tão profundo, que parece estar além de nós e de tudo o que conhecemos. Talvez seja neste momento, aqui sob o manto do céu, que o medo do sobrenatural se insinue lentamente em nossa espécie. Um medo instintivo, sutil, mas inevitável, como o silêncio que antecede a tempestade.
Em noites como esta, o ancião, com seus olhos insondáveis e seu sorriso discreto, sempre tem à mão uma erva secreta ou um cogumelo misterioso, um presente da terra que nos oferece sonho e liberdade. Ele distribui entre os membros da tribo, ora em beberagens, ora em fumaça que se eleva para o céu, e logo a mente começa a flutuar, a alcançar dimensões além do alcance físico. As correntes da carne, os limites do corpo, desaparecem, e somos libertos, por um breve momento, da nossa própria essência.
À medida que os efeitos se fazem sentir, algo mais se revela. Além de nós, além de nossa existência sólida, carnal, há algo à espreita, um ser invisível, sombrio, etéreo. Ele dança na fumaça que se retorce no ar, no farfalhar das folhas, nos uivos distantes dos lobos que parecem sussurrar segredos. Às vezes, esse algo se materializa brevemente, como uma presença fugaz, um eco do desconhecido.
Se eu vivesse em outra época, talvez me lembrasse da Alegoria da Caverna de Platão. Mas aqui, agora, não há apenas um escravo preso na escuridão; todos nós, seres que habitam o mundo físico, percebemos que somos prisioneiros de nossas próprias limitações, ansiando por algo além do visível, algo além da carne e do osso.
As perguntas começam a surgir, inevitáveis, como sementes plantadas no solo da nossa consciência: De onde viemos? Quem nos criou? Por que estamos aqui, à mercê da morte e da fome? Quando morremos, será que somos consumidos por hienas e abutres, deixando apenas ossos como vestígios? Ou será que partimos para algum outro lugar? Uma jornada até nossos ancestrais, aqueles que, em momentos de transe, acreditamos ver em nossos sonhos, ou talvez nas visões provocadas pela beberagem do ancião?
Atribulados pelas mesmas dúvidas, todos começam a grunhir, falar e gesticular de forma desordenada. Nossas mentes, já fracas sob o efeito da substância, se entregam ao frenesi. O líder, com seu semblante grave, decide tomar a palavra. Sua voz, embora ainda desprovida das palavras que a racionalidade exige, reverbera no ar. Ele compartilha suas incertezas com todos nós, que o escutamos com atenção profunda. Cada gesto seu parece carregar um peso maior do que a própria voz, e, ao final, todos nós, em uníssono, respondemos com gritos e grunhidos, como se nossas almas também estivessem tentando se expressar.
O silêncio segue depois de um longo frenesi. Como um rio que, após sua fúria, encontra a calmaria, os ânimos se aquietam. O ancião, então, toma a palavra. Seus olhos brilham com a sabedoria dos tempos, e ele fala: “Há muito mais além do que conseguimos ver e ouvir!” Sua voz soa como um sussurro do além, e suas palavras ecoam em nossos corações. Todos concordamos, e, sem pressa, nos acomodamos ao redor da fogueira, onde a chama ainda dança, iluminando nossos rostos.
Amanhã, quando a Lua se for e o Sol aparecer, precisaremos partir novamente, caçar, coletar, sobreviver. Mas antes de cair no sono, algo me atravessa a mente: em muitas luas que virão, os seres que surgirem aqui, sob o mesmo céu, terão as mesmas dúvidas, as mesmas questões? Eles também olharão para o horizonte, para o céu estrelado, e talvez, como o ancião, também busquem respostas que estão além do alcance.