Marshall versus Hiroshima
O jogo ainda não terminou dentro do rádio.
Ouço comentários conflitantes acerca de crueldades e o que ouço é um resultado parcial,
porém Marshall está vencendo Hiroshima por muitas vidas.
As consequências humanas e ambientais são catastróficas, e ninguém poderá deixar o estádio
antes do apito final.
Um pequeno avião sobrevoa os atóis.
Ali, os Estados Unidos explodiram sua primeira bomba de hidrogênio, e não é o fim do jogo.
A terra está presa ao silêncio.
O Planeta foi envenenado e serão precisos sapatos de éter para caminhar entre palmeiras assombrosas. Da posição onde estou, não vejo pássaros. O sol se desmorona como oxigênio em brasa.
A noite nos surpreendeu em plena tarde. Os homens estão surdos, os rádios não têm voz.
Os jornais fingiram não saber do espetáculo.
Após o impacto da primeira bomba, o sol ressurge de dentro da noite.
A visão é monstruosa.
Olhos tensos, avermelhados, carnívoros, arroxeados. A carne sangrando sobre um arco de brasa.
O buraco negro é uma boca horrenda pedindo analgésicos.
A reconhecida beleza da vida dá lugar a um vazio mortal.
O vírus radioativo, capaz de mudar a direção do vento, assomou-se ao ar, deixando os olhares
perplexos sob duras ameaças.
Morremos sufocados, sem poder gritar.
Para onde segue a onda de veneno, não sabemos.
O ar vai puxando correntes desesperadas: pústulas sangrentas, rosas se desabando,
e moças mutiladas seduzindo moscas para uma sopa de feridas.
Somos meros testamentos mutilados, impossibilitados de deixar o estádio,
sequer expor as contradições.
A ciência transformou homens em ratos. Homens perdidos em seus labirintos sem saída.
homens ratos acariciados pelo pavor de uma arma nuclear.
CK