O que direi à noite, antes de voar
O escritor José Saramago dizia que as palavras não são inocentes. São traiçoeiras e fugazes. Elas podem não traçar itinerários prévios, mas conduzem o nosso ideário; podem construir e destruir esperanças; estimular ou desmotivar pessoas; podem trazer alegrias ou tristezas e, intencional ou acidentalmente, enaltecer ou afundar projetos.
Jorge Amado dizia que as palavras têm vontades e personalidades próprias. Quando elas não querem, não há jeito de encontrar um termo que as substitua. Elas podem ser objeto de inapropriação; podem cometer inverdades, manipular discursos e ir além da ideia que conotam, porque são matéria de pensamento. O início de uma guerra se dá com a mudança da linguagem. O desacordo vem antes das bombas. Isto já foi dito. Quando as palavras reconhecem a nossa mente, elas se transformam em energia e vêm cumprir sua finalidade. O que nos resta é seguir a linha do tempo, como quis Heráclito.
Escritores são páginas espirituais que os anjos escolhem para gerar epifanias. Isto pode conter algo de presunçoso, mas não existe literatura sem presunção e trabalho. Dizem que beija-flores e borboletas são folhas que os livros espirituais descartam, para encher o nosso olhar de poesia. Chegar a perceber essa metáfora exige trabalho árduo. Literatura não brota em árvores. Ela requer labuta.
Eça de Queiroz dizia: “Não tenho medo de pensar diferente. Meu receio é pensar igual e descobrir que todos estávamos enganados”. Escrevo como quem morre, disse Manuel Bandeira. Escrever é a maneira que encontrei de postergar a minha morte. Drummond escreveu, em seu poema “O Lutador”: “Lutar com palavras é a luta mais vã; no entanto, lutamos mal rompe o amanhã”. Literatura é letalidade que não mata. Não mata de vez. Mata todos os dias, minuto a minuto.
Após concluir suas filmagens, Chaplin sacudia sua árvore, e todas as cenas que não se aguentassem nos ramos seriam naturalmente descartadas.
Para Flaubert, o texto deveria ser tratado com desprezo. Só no caso de ser melhor do que ele valeria a pena ser publicado. Este é o nosso ofício: ser personagens de nós mesmos. O que fazemos e o que somos está dito e escrito em nossa arte. É difícil extraviar o fio condutor do sentido do puramente imaginário. O que somos, a maneira como nos colocamos na vida, geralmente nos chega como amparo. Um artista, de qualquer natureza, não pode ser tratado como um tipo comum. Se o fosse, ele seria capaz de voar.
Na rua, um admirador pergunta a Sarah Bernhardt:
— Desculpe, mas a senhora não é Sarah Bernhardt?
Ela responde:
— Logo mais à noite, no palco. Lá, eu serei.
Esta é a maneira de nos isolarmos do ficcional, mas não dá para vestir essa armadura em tempo integral.
Perguntaram a Sócrates, o filósofo:
— De que te serve aprender a tocar a lira, visto que vais morrer?
Ao que Sócrates respondeu:
— Serve-me para tocar a lira antes de morrer.
É deste jeito. Escrevemos sem saber para quem escrevemos. E escrevemos como quem morre.
Eu gostaria de expor claramente as minhas ideias; dar a mais clara demonstração de princípios, sobretudo no que me propus. Gostaria de atingir o mais alto padrão de conhecimento ou, talvez, ser a grande mensagem transmitida pelos espíritos. Mas não tenho tamanho nem grandeza. Nesta noite, antes de voar, eu deveria dizer o melhor de mim, mas não direi, pois não sou arrojado.
Gostaria de ser o eclesiástico mais eficiente do meu tempo, se o que almejo são as realizações mais nobres. Tento a confirmação do idealismo sublime que aprendi, mas sou pobre. Sou oco e recinto de dedicação.
Fico satisfeito de não ser a nota discordante da orquestra, especialmente de não ser arquiteto de aflições. Poderia ser menos ansioso, pois a ansiedade destrói as harmonias trabalhadas. Há um ser invisível que nos domina e nos submete ao delírio de escrever. De onde vem, quem é e o que pretende… Não temos respostas. Não o conhecemos, mas eu sei que nada é feito sem a sua vontade.
Eu gostaria de poder tocar o clarão que facilita toda esta caminhada. Mas já estou contente de ser uma pedra bonita na minha guia. A cada livro que publicamos, nós, escritores, damos um passo adiante. Passamos a observar o mundo com mais gratidão.
Antes de dispormos sobre o caráter de cada personagem, precisamos olhar para dentro de nós e gostar do que somos. Espero que o meu espírito tenha um gosto carinhoso por cada coisa e contribua para dar a essa coisa vida e novos sentidos.
Sejamos, portanto, pacientes, se pretendemos ajudar alguém com a tarefa de levar a literatura pela vida.
Espero ser delicado com o Mundo. Não peleio com aqueles que se colocam entre as mais inteligentes criaturas. Isso é cruel com o sujeito. Quero lutar a favor das ideias do cotidiano — desde que elas sejam doces.
Não pretendo desistir de ser amado pelo que faço. Eu sei. Amo o que faço e gostaria de ouvir de um bendito espírito estas palavras:
“Ei, não desista! Há queimaduras que te ferem na alma. Embora o medo te morda, o sol ainda vai descer sobre a tua casa. Nas ruas, o vento que ainda venta espera muito de ti.”
Se eu ouvisse tais palavras, acenderia labaredas em minha alma.
Seguirei por este caminho até a morte, porque há muitas vidas em meus sonhos. Dos livros que publiquei, em cada um, coloquei meu sentido mais puro; os caminhos mais retos. Às vezes, nos deparamos com labirintos, mas todos carregam consigo a chave que nos levará à compreensão de tudo.