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Inconclusos Online

Kogitsune - A Espada da Raposa

De Camponês Sem Nome ao Samurai que Salvou o Japão

Autor

Fernando Castilho

Editora

Lavra Editora

Ano de Publicação

2026

Temas

Gênero

Sinopse

No Japão do século XVIII, onde o aço fala mais alto que a palavra e o destino é uma lâmina afiada, nasce a história de um menino camponês sem nome. Chamado de Kogitsune, a Raposinha, por sua astúcia feroz, ele recusa-se a viver ajoelhado na lama, plantando arroz. Com a ousadia de quem nunca aprendeu a temer, desafia a rígida hierarquia da época e desperta o olhar do senhor feudal Kageyama Kizaemon, um homem moldado pela dor, isolado em sua própria tristeza, cercado apenas pelas memórias da esposa e do filho que perdeu antes mesmo de nascer.

Arrancado da poeira e do anonimato, Kogitsune renasce como Haruki, forjado no fogo do Bushidō, o código de honra dos samurais, e temperado pela disciplina severa dos guerreiros. Mas sua jornada não será apenas de glória; ela será marcada pela mais cruel das provações: a traição.

QUANDO O IMPÉRIO TREME…

Um pergaminho secreto revela uma conspiração devastadora: o traidor Uesugi planeja derrubar o shogunato Tokugawa e mergulhar o Japão no caos, assumindo para si o posto supremo de shōgun.

Haruki e Kageyama são lançados em uma missão mortal pela traiçoeira Trilha Nakasendō, onde cada curva esconde uma emboscada e cada passo pode ser o último. A lealdade cobra seu preço mais alto: o mentor Isao tomba em combate, o bravo samurai Saburō é silenciado, e um incêndio criminoso transforma uma hospedaria em um inferno de cinzas.

…E SÓ A CORAGEM PODE SALVAR UM AMOR.

Enquanto as chamas da guerra lambem os muros do Castelo de Edo, Haruki luta não apenas contra inimigos implacáveis, mas contra o próprio destino. Seu coração pertence a Harue, a jovem cuja beleza e força são sua única luz na escuridão.

Para impedir a queda do shōgun Tokugawa Ieshige, Kageyama e Haruki unem forças com o lendário Takeda Shintarō e a corajosa curandeira-guerreira Rin, enfrentando um exército numeroso, armado com pólvora e crueldade.

No ápice da batalha, quando tudo parece perdido, a esperança surge de onde menos se espera: o irmão camponês de Haruki, Hiroshi, que, empunhando apenas uma espada de madeira, desafia o impossível e muda o curso da história.

Haruki não luta apenas por seu senhor. Ele luta por honra. Por amor. Pela memória dos que tombaram. E por um futuro onde a Raposinha possa, enfim, correr livre sob o céu do Japão.

A luz do sol do meio-dia caía como lâminas sobre a terra molhada da plantação. Branca, impiedosa, ela queimava o campo e os segredos que ali germinavam.
Entre os sulcos do arrozal, o menino caminhava com a cabeça baixa, os pés afundando na lama, já acostumado ao peso invisível dos olhares que o seguiam como sombras.

Na entrada de um casebre torto, à beira do arrozal, a velha Michi observava. Sentada sobre um pano puído, os olhos semicerrados se fixaram no garoto com precisão de flecha.

O sussurro cortou o ar como uma lâmina embainhada em veneno:
— Lá está o Kogitsune — disse, com a voz carregada de desprezo.

Ao lado, a neta, de voz mais doce, inclinou a cabeça, defensiva:
— Deixa ele, vovó. A senhora pega demais no pé dele. A senhora lhe deu esse apelido para zombar dele.

Michi soltou uma risada seca, como madeira rachando. O quimono que remendava escorregou de suas mãos.

— Pudera! Ele nem parece gente. Parece filho de raposa. Você sabe como são as raposas: ardilosas. Enfeitiçam. Quem garante que a mãe dele não foi enganada por um kitsune e pariu essa mistura de bicho com gente?

O menino parou. De súbito. Como um animal que fareja o perigo.
Ergueu o rosto. Os olhos, escuros e intensos, cravaram-se nas duas como flechas silenciosas.

— Olha só como ele nos fita. Parece mesmo uma raposinha desafiadora — murmurou Michi, sentindo um arrepio subir pela espinha.

Naquele instante, o tempo pareceu suspenso. Os olhos do menino carregavam a astúcia e a inquietação de um filhote selvagem.

Num gesto teatral, o menino preparou-se para o movimento que o libertaria da humilhação: um salto altivo, uma virada de costas com desdém, e, como último ato, a exibição ostensiva da bunda.

Mas a terra, úmida e traiçoeira, pregou-lhe uma peça.

O salto virou tropeço.

O corpo se estatelou no chão com um baque surdo. Caiu de bunda.

O som da queda mal ecoou e já foi engolido pela gargalhada estridente de Michi.

— Hahaha! Vejam que raposinha desajeitada! — bradou, quase sem fôlego. — Não serve nem para saltar! Hahahahaha!

A risada cruel foi cortada por uma voz grave, vinda do fundo da lavoura:

— Pare de perambular por aí e venha trabalhar, menino!

Kogitsune, com o joelho ralado e o rosto sujo de lama e humilhação, sentiu o orgulho ferido arder mais que o arranhão.

Levantou-se com lentidão calculada, como quem ensaia cada músculo.
Virou-se uma última vez para a velha e sua neta. O rosto em brasa.

E então, num gesto final de rebeldia infantil, mostrou a língua.

Depois, sem pressa, caminhou em direção à voz do pai.

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    Depoimentos
    O prefácio do livro já avisa: acomode-se na sua melhor poltrona ou correrá o risco de ficar com torcicolo por ficar tanto tempo na mesma posição de leitura. E como também indica o prefaciador Roberto Yoshihiro Nishio, presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social – Bunkyo, Fernando Castilho é um confesso admirador de Eiji Yoshikawa (autor de romances históricos) e Akira Kurosawa (cineasta). A informação na orelha do livro também ajuda a traçar um perfil desse hábil escritor, que morou e trabalhou por sete anos no Japão, uma imersão que lhe favoreceu a pesquisa e a fidelidade nessa escrita que mistura elementos históricos daquele País e ficção.
    O romance enfoca em um Japão histórico, ainda sob o domínio dos Shóguns, com seus senhores feudais (os daymiôs), seus samurais, suseranos e vassalos (que trabalhavam à exaustão para servi-los e sobreviviam com o pouco que restava de suas lavouras). Conta a história de um jovem camponês rebelde, Kogitsune (filhote de raposa) que não se conforma com a vida de lavrador e faz de tudo para se tornar um samurai, rompendo com a estrutura de classes da época, e assim viver em um mundo de glória, fartura, mas também de disciplina, provações, aventuras e lutas sangrentas.
    O romance possui força imagética com cenas descritas com dinamismo e riqueza de detalhes, fazendo com que o leitor se sinta ainda mais presente em toda a jornada do protagonista e das pessoas que o cercam. O projeto gráfico do livro contribui para a imersão, trazendo uma capa mergulhada nessa aura épica (elogiada pelo público presente ao lançamento) e figuras que ajudam o leitor a se situar no espaço/tempo dos acontecimentos.
    Fernando Castilho certamente não é nenhum daimyô, mas poderia ser um tipo peculiar, tal é o controle sobre seus domínios literários e a forma como interliga as tramas e as cenas de sua escrita.
    Informações coletadas com precisão em sua pesquisa e ordenadas conforme sua estratégia de compor a história. Assim como os senhores feudais de “Kogitsune – A Espada da Raposa”, estas são habilidades forjadas ao longo dos anos, por vivência, paixão e dedicação, e dispostas com firmeza para a obtenção de seu propósito, mas também com a mesma delicadeza que seus personagens se dedicam à arte e ao conhecimento.
    Castilho também não é um samurai – embora tenha confessado no lançamento do livro a sua paixão pelo tema, pela história e aventuras que cercam a temática do Japão feudal, assim como a história do País (Japão), a culinária e os costumes –, mas, pela licença poética, também poderia ser, pois maneja com mestria sua katana da literatura. As sentenças são precisas. Não têm exagero de descrição ou fatos que se arrastem demais; os cortes nas passagens, cirúrgicos, limpos e eficazes. Frases curtas, ritmadas, pacientemente colocadas à disposição dos leitores, trabalho harmonioso, assim como as pinturas nos biombos que o daimyô Kageyama faz em sua concentração e equilíbrio entre o domínio da frieza da lâmina e a liberdade do pincel.
    Tem a ousadia de seu personagem principal, a pequena raposa, Kogitsune, numa história fluída e cheia de aventuras. E tal qual os golpes deferidos por ele, tem a movimentação trabalhada, construída com parcimônia para, repentinamente, num giro no ar, executar o golpe que prende a atenção do leitor, mesmo o mais distraído. Aos poucos, o filme, quer dizer, a história (praticamente cinematográfica) se preenche de belas imagens, guerra, romance, traição, honra, luta por um ideal maior, lealdade, enfim, ingredientes que capturam a atenção e quase impedem os olhos de serem desviados de cada linha.
    “A luta agora é contra o tempo” como bem escreve o autor, pois uma vez que se inicia a leitura, nossa vontade é de não fechar o livro até chegar à última página. Se por algum motivo fechá-lo antes do término, é bom segurar a ansiedade, pois vai querer voltar à leitura o quanto antes.
    Manogon Manoel Gonçalves

    O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.