Se metade dos brasileiros — aqueles movidos pelo medo fabricado — ouvisse as últimas palavras de Kaddafi, talvez mudasse sua política de medos.
O grito não veio de um covarde. Veio de um homem africano ferido, arrastado pela poeira de Sirte, sangrando, confuso, traído.
Muammar Kaddafi não morreu em um campo de batalha. Caçado como um animal, em seus segundos finais, não amaldiçoou os inimigos. Fez apenas uma pergunta que ainda queima a alma da África:
“O que eu fiz de errado?”
Reflita.
Um homem que se levantou contra os bancos ocidentais; um líder que ousou sonhar com uma moeda africana lastreada em ouro; um presidente que lutou pela unidade africana, por passaportes africanos, pela dignidade africana.
Eles não o perdoariam.
Foi chamado de “ditador”, enquanto a África assistia à OTAN bombardear a Líbia.
Antes de 2011, a Líbia apresentava alguns dos melhores indicadores sociais da África, com educação amplamente acessível e altos níveis de escolarização. O país também mantinha um padrão de vida elevado para os parâmetros africanos da época.
A Líbia era um país independente. E a independência pode ser perigosa quando um país africano decide trilhar seu próprio caminho.
Quando Kaddafi foi espancado, cuspido, esfaqueado e baleado, parte do mundo assistiu. A África deveria ter usado luto.
Naquela tortura, não estava apenas a figura de Kaddafi.
Morria com ele, para muitos africanos, a esperança de uma África autônoma, respeitada e capaz de decidir o próprio destino.
Hoje, a Líbia é um país devastado: um território dividido, marcado por guerra, milícias, tráfico de pessoas e pela presença de interesses estrangeiros.
Em 2017, uma investigação da CNN documentou mercados em que migrantes africanos eram vendidos como escravos em território líbio. As autoridades líbias chegaram a anunciar uma investigação depois da divulgação das imagens.
Este é o padrão que precisamos observar.
Não é apenas um acidente político.
Quando um líder africano diz:
“Queremos nossa própria moeda, queremos nosso próprio ouro, queremos nosso próprio futuro.”
ele precisa saber que está contrariando interesses poderosos.
Quando Kaddafi perguntou:
“O que eu te fiz?”
A resposta que muitos de nós daríamos seria:
Você tentou fazer a África se erguer.
Mas a África não conseguiu impedir sua queda.
Agora, a África precisa acordar.
A Venezuela precisa acordar.
O Brasil precisa estar atento.
A ida de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos e sua atuação junto a setores do governo Trump colocaram o Brasil no centro de uma disputa internacional que ultrapassa a política doméstica. Em 2025, sua atuação nos Estados Unidos esteve diretamente associada à pressão política contra o governo brasileiro e às medidas anunciadas por Trump contra o Brasil.
É preciso estar atento para que o Brasil não seja transformado em palco de uma experiência de desestabilização que o leve a uma situação semelhante àquela que destruiu a Líbia.
A África deve se lembrar.
A África nunca mais deve ser enganada.
Carlos Kahê
Adaptado de Retratos da África