Um certo homem cândido
Ninguém poderia afirmar que conhecera aquele homem sisudo e triste que media a generosidade da chuva empunhando a sombrinha mais antiga do bairro. Diziam que ele habitava outro planeta e descia de um bólido para pousar naquela casa que vencera séculos intocada, pois ele sabia, como ninguém, criar um ambiente de mistério, medindo a intensidade da noite e atraindo fantasmas para as suas vidraças. Antes de se afastar de nossas vidas, o homem cândido sapateou com Fred Astaire em uma gloriosa manhã de sol, salvaguardado pela distância que os separavam do nosso Estado.
Foi a última vez em que concedeu a si mesmo um sinal de conforto e de alegre felicidade. Naquele tempo, ele cativara a rua como uma espécie de metáfora chapliniana – irônico, crítico, triste, sério – possivelmente, usando máscaras bem definidas por uma elegância dignamente refinada. Com dificuldade de entender o mundo veloz, ele renunciou aos afetos, protegendo sua individualidade; criando um personagem profundo, inalcançável, filosófico, pleno de estética e de musicalidade, sempre recorrendo a discursos incomuns, admirados pelos próprios colegas.
Em crônicas jornalísticas, o homem cândido enaltecia a poética e dizia ser desalentador viver sem a inteligência da poesia e das linhas tecidas pela retórica. Seu léxico era tão poderoso, que suas crônicas e artigos tinham capacidade de elevar o nível da personalidade leitora, e o caráter do mundo à sua volta. Admirava os atores mundanos, geralmente anônimos, vindos dos subúrbios mais longínquos, sobretudo os estrangeiros e artistas sem plateia, que ele os separava e os enaltecia como princípio de tudo o que somos. A ele, não importava se coveiro, açougueiro, motorista, dependentes químicos, trabalhadores braçais ou escravos – “Todos fazem parte do acervo humano e são personagens com histórias interligadas por existências múltiplas. Todos, fundamentais à vida”.
Depois do café matinal, o nosso personagem costumava reunir-se com outros tipos de devotos: comerciantes, poetas, poliglotas, fazendeiros. Para ele, todos sagrados e importantes segmentadores da árvore mãe da sua escrupulosa vaidade. As pautas dos tais seminários ativavam a nossa curiosidade, porém, seus limítrofes não conseguimos ultrapassar. Atas e anotações, ele as guardava para livros futuros e ninguém deveria tocá-las. Desconhecemos (também) a ordem de prioridades, linhas sucessórias, relações íntimas que sabíamos inquebrantáveis, misteriosas, temas insuperáveis, em virtude de sua beleza máscula, o que nos levava a imaginar haver registros de amores em sua vida.
A nós pecadores, era impossível crer que ele optara pelo celibato. Imaginávamos que, entre quatro paredes, ele, certamente, deveria liberar proteções e defesas e se permitir tocar as mutabilidades sexuais, as mais extraordinárias. Mas, sejamos justos: enquanto viveu em nossa rua, ninguém pode afirmar que tocou sua intimidade: ele não aceitaria enredos que quebrassem os seus mistérios.
Jamais fora visto bebendo em público. Tudo nele era moderado. Ele nunca se exaltava e pode estar aí o modo que encontrou de conservar o coração e os hábitos centenários. Pode estar aí, o grande interesse pelas trajetórias majestosas, o ouvido gentil, aliado ao rigor gramatical e ao conhecimento enciclopédico. Cansado, ele não fazia questão de esconder seu doloroso enfado. Sua casa sempre fora sua asa de proteção, e foi onde viveu seu reduto de solidão. Dizia-se, religioso sem religião e jamais fora visto em colóquios particulares com padres ou pastores; suas confissões, ele, certamente, as guardava para os livros que escreveria no futuro.
Naturalmente gentil, ele usou a gentileza para proteger sua impessoalidade ilustre; colecionou atributos pessoais, como a tolerância e o cuidado, mas não tivemos o privilégio de tê-lo mais próximo, ou de usufruir da sua matéria legítima nem da sua natureza fáustica. Amparados pela nobreza de atitudes, suas referências intelectuais, as captávamos dos manuscritos recrutados às suas lixeiras. Quando nos abandonou, isolou-se naquela Ilha de medos, e o que de mais estranho podemos ressaltar, foi ele ter-se deixado levar pela negação ao riso – sempre tão sério – e a estranheza com que media a generosidade da chuva, parado na calçada, lutando contra a própria sombrinha. O ato, em si, pelo fato de ocupar um ator reconhecidamente taciturno e solitário, desenvolveu na vizinhança um misto de admiração e de curiosidade. É difícil o imaginar vivendo noutro tempo ou país, ou que não esteja mais entre nós. Ali tão perto, na escuridão da antiga casa, é impossível não imaginar sua alma ansiosa pela presença viril do inusitado. Esta não é a coisa mais certa de todas as coisas – como diria Caetano. Se ele fez mesmo o caminho para o sol, certamente pisou as malhas suaves das fontes onde nascem todos os seres; virou vapor de planetas ou, simplesmente, recolheu-se entre os afrescos renascentistas, cravados nos recessos de suas vidraças.
Carlos Kahê