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Inconclusos Online

O Motorista Gentil

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Um imigrante em Santos surpreende-se com a gentileza e empatia de um jovem motorista de ônibus, que ajuda passageiros, cuida de um celular perdido e transforma a viagem em um ato de resistência pacífica e esperança.

O motorista gentil

Sou um imigrante recente, da agitadíssima São Paulo para a tranquila e praiana Santos.

Como a cidade não é tão grande, leva-se no máximo cerca de vinte minutos para se deslocar dentro dela. Porém, outro dia, eu e minha esposa precisávamos atravessar a cidade para tratar de assuntos particulares.

Fizemos uma viagem de Uber por cerca de 45 minutos e, embora sempre tenha a expectativa de encontrar um motorista reacionário, o que tem sido frequente, dessa vez a conversa foi agradável.

Na volta, decidimos tomar um ônibus, já que a corrida de Uber ficou muito cara.

Ao subirmos no ônibus, a primeira surpresa foi o “boa tarde” dado pelo motorista, um jovem magro, de cabelos raspados nas laterais e uma espécie de birote no topo da cabeça. Os óculos escuros completavam o visual.

O celular ligado em alto volume, tocando músicas que eu desconhecia, não parecia incomodar os passageiros.

Dali a pouco, mais uma surpresa. Uma senhora grávida apertou a campainha solicitando parada. O motorista lhe perguntou onde iria, ao que ela respondeu que iria a uma clínica da prefeitura do outro lado da avenida.

O rapaz, em vez de parar o veículo no ponto, avançou mais uns 50 metros para que a senhora pudesse atravessar com segurança na faixa de pedestres. “Aqui é muito perigoso pra atravessar”, justificou.

Mais uns dez minutos depois, uma mulher com uma menina no colo não sabia onde ficava uma escolinha para crianças especiais e perguntou ao motorista. Ele disse que sabia e que iria parar na porta do estabelecimento. “Fica tranquila.”

Antes de chegar, a mulher comentou que estava tentando colocar a criança em uma escolinha, mas não estava achando vagas. Quem sabe naquela? O motorista respondeu que também era pai de um menino especial de dois anos e que também foi uma luta encontrar uma para ele.

Ao chegar ao destino, o rapaz encostou delicadamente o ônibus e aguardou a mulher descer com segurança.

Mas as surpresas não pararam por aí.

Um passageiro avisou que alguém havia esquecido o celular no banco. O motorista pediu que o levasse até ele. Parou o ônibus e tentou ligar o aparelho, mas não conseguiu porque precisava da senha.

Outra passageira disse que achava que pertencia a um rapaz que descera mais atrás.

O motorista olhou para trás e eu juro que ele pensou em retornar para procurar o dono do celular.

Olhei para minha esposa e disse que, por nós, tudo bem, já que dispúnhamos de tempo.

O motorista então se justificou para os demais passageiros, dizendo que infelizmente não poderia retornar para procurar o rapaz. Claro que não, pensei. Neste mundo em que gentilezas como essa não fazem parte do lucro das empresas, isso seria motivo para demissão do rapaz.

Em seguida, falou para todos ouvirem: “Olha, gente, eu vou ficar com o celular e mais tarde vou levá-lo para a garagem dos ônibus. O dono pode ligar de outro aparelho perguntando sobre seu celular ou buscá-lo na garagem. Podem confiar em mim, não vou roubar, não, tá?”

Àquela altura eu compraria qualquer coisa que ele quisesse vender, tamanha a confiança que me inspirou.

Enfim, chegara a hora de descermos e, antes que agradecêssemos e o cumprimentássemos pelas gentilezas demonstradas durante a viagem, foi ele quem nos agradeceu. “Obrigado.”

Durante o percurso a pé do ponto de descida até nossa casa, refletimos sobre como a gentileza pode realmente atrair gentileza, tornando todos menos defensivos e tensos. E nos sentimos leves.

Num Brasil dominado por gabinetes do ódio, é sempre bom passarmos por experiências gratificantes como essa.

O motorista, jovem, de cabelos escuros, certamente não é gentil porque leva uma vida boa, recebe ótimo salário, tem esposa e filhos saudáveis.

Consegue separar as coisas e, talvez, para enfrentar as dificuldades do dia a dia e de sua profissão, se armou não de armas que matam, mas de uma maneira de se comportar que torna seu dia mais leve. Uma resistência, talvez.

Quem sabe, passado esse pesadelo em que 30% dos brasileiros ainda apoiam um presidente que insistia em armar a população e desdenhava da morte do outro, possamos ter mais pessoas como aquele motorista.

Tenho essa esperança.

 
 
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O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

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