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Inconclusos Online

Imagem de destaque da publicação "República dos passos livres"

República dos passos livres

Eu em frente ao espelho

Celebração à liberdade individual. O homem atravessando (nu) a sala, abrindo gavetas, revendo o mesmo filme, empilhando livros, cozinhando, lavando a louça … recriando com sensualidade, poesia e humor seu novo inventário de vida.

Na República primaveril de minha casa, eu construo a pátria livre e atravesso nu, a sala.

Voo livre do norte ao sul dos meus domínios; livre, abro portas, arrumo gavetas, aposto moedas da sorte e me devoto a pensar em bobagens. Gravuras imorais. Saio do chuveiro, sem trâmites de censura, sem interferências de falas; ligo a intimidade da vida na tomada, espalho-me na cama, eternizo-me na rede e vejo, pela enésima vez, o mesmo filme. Deito-me ao sol, com a mesma sede com que vejo futebol, de sol a sol. Visito óperas, desligo jornais, faço acúmulo de livros: empilho-os na cabeceira; não distribuo recados, tranco-me nas ruas, acordo nas feiras… Convido, desmarco, peço iFood, cozinho, lavo a louça, seleciono angústias e renovo as tintas casuais. Desenho utopias, escrevo poesias, coleciono gravuras, rasgo planos imorais. Viajo sem aviso e sem tempo de voltar.

Na intimidade livre da minha casa, recebo com independência o correio, ouço as mesmas canções, sem freio e com a mesma frequência com que escrevo, revejo seriados antigos. Em tudo, sou compulsivo.  Atravesso noites ao telefone, converso sobre ausências, caminho às cinco, acordo às dez, invisto na despensa, visito a geladeira, dou vida ao fogão, semeio alegria no pomar, reinvento sobras, pinto e reboco paredes, paro no verso que se excedeu…

Amo sem anticonceptivos, tento exercer escolhas, adulo as renúncias, amasso as rotinas, fecho o livro dos dias na página final, limpo emoções, atiro-me ao arame, confiando no equilíbrio de mercado. 

O homem que quer ser pássaro já nasce livre e escolhe o seu drama com a habilidade da folha que viaja solta, viaja silenciosa, viaja pela mão do vento… Quando partistes, bebi porres de enfados. A virtude não abriu mão dos meus pecados, depois que a poeira da solidão os reconheceu.

Ontem de manhã, fiz quarenta anos.

Despi-me diante do espelho. Ah! Sempre existiu o espelho. Eu que o havia esquecido.

Ontem de manhã… quarenta anos. O espelho, semblante sério, parou diante de mim. Ele, maduro. Eu,  mais comedido. Não vi o vulto, que quase de manhã, se retirou. Se ficou comigo, não o conheci. É sempre assim. Os corpos ardem à noite em fogueiras. Vem a madrugada e a minha geleira gela os corações.

Hoje de manhã, o espelho me pergunta se acredito em solidão.

CK

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O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

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