Na noite da Paixão, Arimateia ofereceu um grande jantar nos jardins de sua bela casa, no Lago Tiberíades, abaixo dos rochedos de Cesareia. A ideia seria criar uma atmosfera cordial, mas tudo ainda se movia sob o grande impacto da crucificação. Amabilidades sentimentais entre homens ricos, sem nobreza, e mulheres exuberantes fora da realeza: uma junção de gostos duvidosos que resultou num trivial estravagante.
A dramaturgia inquieta estava lá.
Bergman e sua Lanterna Mágica lançaram luz sobre os convidados mais lacrimosos. O cineasta admirou as releituras de temas já consagrados, os mais relevantes, onde ateus e religiosos deram-se as mãos para anunciar a consagração futura e dominante: as igrejas sem Deus.
Anjos impuros buscaram lugar no muro invisível, longe de Maria (mãe), que naquele instante ouvia prédicas dos discípulos e dos ogãs mais destemíveis. Pedro e o seu advogado, acompanhados de Pilatos, escolheram um lugar quieto, pois tentavam se isentar dos assuntos mais complexos. Tristonha, Nossa Senhora assistia a tudo, fechando os olhos puros às teorias mais abomináveis. Triste e indefinida, a Santa se absteve da sopa mal servida. O drama da Paixão a aniquilara.
A realidade dos dias seguintes aniquilaria todas aquelas vidas. A política, discutida em sussurros, se esgueirava pelos cantos mais obscuros, e ninguém queria ouvir, nem entender, o que Netanyahu conspirava. Da alegria contida às tristezas esfuziantes, os sentimentais sem sentimento, ainda que equivocados, ainda vão caminhar mais adiante.
O manto de Jesus bailou sob a lua cheia. Venceu os mares.
O Sangue, arrancado ao rosto divino, foi uma espécie de inspiração para igrejas milionárias extorquirem a humanidade. Igrejas outras, industriosas, teatralizaram a Via Crúcis, reproduzindo sudários, em ouro, com sangue de pérolas, cruzes de diamantes, calvários com cachoeiras, pecados encobertos com chocolate, consagrações com temas carnavalescos. Mortes de pedra, sem cruz. Ilha de Vera Cruz! Terra de Santa Cruz!
Tantas mortes de índios, negadas, mas simbolizadas em fileiras de cruzes… Onde estariam os índios, naquele momento? Ouvindo rádio? Trançando seus relicários? Madalena, acompanhada do soldado que fizera a coroa de espinhos, continuou triste e pensativa. Simão Cirene e os rapazes, que ajudaram Jesus com o madeiro especulavam sobre a ideia de levar adiante a experiência de encurtar caminhos. Judas, o traidor, que ganhara o prémio de melhor ator, planejou correr o mundo inteiro vendendo Geena, seu grande e consagrado roteiro.
Junto às sebes lilases, a multidão suspirava, silenciosa, enquanto as aves de rapinas vasculhavam outros ninhos. Longe de Jerusalém. Longe, muito longe… noutro mundo. Noutro mar. Os dias nunca mais voltariam a ter a clareza da verdade. Candelabros se apagariam para acender a escuridão. A servidão humana passaria a dominar o inferno nas grandes cidades. As belas casas, moinhos e faróis tristonhos, não acenderiam mais as suas luzes. As aldeias viveriam sem eletricidade. Apagados, desalentados, prosseguimos nós com o nosso teatro de presépios natalinos. Nos tornamos fantasmas de nós mesmos. Doravante, seríamos nós a desenterrar a nossa dignidade morta, simbolizada pela negação à Democracia.
Onde plantaste em ti, a morada do seu Jesus?!
Jesus não morreu. Um Deus nunca morre. O homem comum morre. Morre todos os dias. Morre aos poucos. Morre em seus calvários diários. Sua imortalidade é o verbo.