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Trilogia com meu Mestre. Parte 2

A Loba

Pois bem. Aqui estou: sou um pouco da estrada que não percorri, um resto de lua e metade da aura daquela dama.

Trilogia com meu Mestre. Parte 2.

Mestre!

Estou com indigestão.

Da lua que eu comi.

Houve arrependimento, porque comi a lua, e agora, de noite não vejo nada.

Era lua minguante, me lembro bem, mas aqui dentro com esta indisposição, parece que a lua começa a crescer.

Não consigo digerir. Esta luz que o senhor vê por trás de meus olhos, me atravessa a face e sai por de trás da nuca…é falsa, não é minha.

É da lua.

Além deste brilho insustentável, espeta-me impiedosamente a ponta dela, nas paredes do estômago.

À noite, quando me deito, viro e parece que um buraco negro vai implodir dentro de mim.

Estou com muita raiva mestre, pois o Senhor ficou apenas a fitar-me, quando virei aquela estrada com a mão, poderias ter-me advertido, até paralisado.

Mas ao invés disso, possibilitou-me após tal furtivo e inconsequente prazer, confrontar aquela mulher!

Pois bem. Aqui estou: sou um pouco da estrada que não percorri, um resto de lua e metade da aura daquela dama.

Está tudo errado. A dama eu deveria ter conhecido primeiro, enredando-a em poucas palavras e nenhuma pergunta sequer, eu deveria ter-lhe dado a lua que engoli.

Logo em seguida, o certo seria que eu pedisse a ela que nos guiasse por uma estrada reta que eu virei com a mão.

São estas as coisas boas, que eu não deveria nem ousar dividir as tarefas, destinadas por natureza, a elas, essas lobas.

Fui tolo.

Sou isso. Inconstância.

E agora, lido com o silêncio imperativo que sempre norteia minha existência junto a dela.

Ah. Seria tão fácil ter percorrido aquela estrada seguindo as pegadas dela…

Ela carregaria a lua nas entrelinhas.

Mulheres assim, quando precisam caminhar carregando a lua, nem sentem fome.

Foi o que disseram.

Não preciso dizer que a lua iluminaria o caminho. E que de onde estivéssemos, não

sentiríamos necessidade de pensar em orquídeas. Por causa do ventre. Do vento.

Há quem se contente em ouvi-lo. Eu me deleito em ir com ele. Naquelas pairagens, o vento não haveria de trazer consigo nada perigoso, por mais que fosse invisível.

Hoje, já não sei. Se respiras, me ofendes.

Se discordo, me matas.

Se concordo, me temes.

Se te amo, me deixas.

Mas não não Mestre…delirei…

…eu não falava sobre amar-Te…amar é uma arte …falava do vento…que me escuta …

o Senhor não, sequer me vê…ri de mim… Seu corpo até balança…

És cruel.

A lua me atormenta o estômago, a boca e a visão. Imputa-me um brilho excessivo …

incapaz de sustentar…

necessito de um pouco de distância.

A lua era importante de lá de longe onde estava…seu reflexo era suave pra mim …hoje já não aguento.

A estrada que nem reta nem curva, não mais me pertence, posto que se não posso ver, não existe… não posso pisar…

E a mulher, sem nome… não ousei chamá-la pelo nome… seguiu por sua própria estrada

..que ela mesma criou…cuja luz vem por debaixo do ventre, entre as pernas…e em um movimento invertido, ilumina passo por passo daquela loba —- no mais, tudo é escuridão…e não sendo por maldade, não pude pertencer.

Por fim, de vez … confesso…o silêncio Seu, me

agride, me descompassa. Me arremete a esta estrada escura que outrora tinha cheiro de orquídeas e agora, vai dar em lugar nenhum.

E aquela mulher, o que ela queria de mim afinal, mestre? Até hoje eu não sei.

18-02-21

H.C.🌻

 

Live 'Ventos de Outono'.
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