Trilogia com meu Mestre:
Parte 1:
Mestre, eu estive com ela. Ela me contou. Passou a vida inteira buscando pertencimento. E não disse o seu nome. Disse que não era importante.
Ela disse que só queria pertencer. Arrumar tudo: a comida, o gesto, o jeito.
Fazer o amor do cotidiano acontecer. A rotina enternecer.
Ela cuidava daquele amor que dependia da iniciativa dela, de nunca desistir.
Mas quando ela tinha de falar sobre o amor, sempre engasgava, o olhar ficava procurando algo mais lá no fundo, que não se parecesse com sacrifício.
Eu vi que ela não prestava muito atenção às palavras, por mais que delas dependesse cada respiração sua, já que nem mesmo um sopro de ar para ela, poderia desprover de sentido.
E eu também sei das suas limitações com a língua portuguesa, de cada vez que ela tentava se rebuscar e perdia o fio da meada, deixando ir também a catarse.
Daí, era uma sensação de cansaço por ter perdido a palavra e não ter conduzido aquele amor. Amor cão. Isso mesmo: amor cão.
Foi o que ela disse.
Que o amor era uma tragédia.
Uma busca pelo nada em si mesmo.
É estranho. Nada é tudo. Tudo depende de enxergar o absolutamente intangível.
Eu acho mestre que a invadi, quando descobri que ela não consegue ficar em silêncio. Ah, eu vi isso.
Eu não disse nada. Apenas vi. Ela reparou nisso, que eu vi, e insistiu na temática
do amor.
Tudo é amor na boca da gente. Isso cansa. Assim como tudo é em nome de Deus.
Coitado.
Concordamos nisso. Em nunca querermos ser Deus, nem ao menos sermos parecidos com Ele.
Este tem de livrar à todos de tudo. ———– Mas mestre, eu queria mesmo é saber que aprendizado é esperado que eu tenha, de ter contato com esta mulher.
Ela me pareceu meio louca. Não compreendeu nada nada, quando eu disse que tinha comido a lua e virado a estrada com a mão, para encontrar por fim, as orquídeas.
Me espantei. Uma mulher não saber das orquídeas.
E duvidar da minha lucidez. Mania de controlar tudo. Sobretudo o ato.
Sabe mestre, às vezes suas respostas atropelam os meus questionamentos.
Sempre o cordão de ouro das palavras.
Eu não ousaria interromper a caminhada, o trajeto daquela mulher.
Dizem que elas, as mulheres, sempre têm razão.
Eu não quero ter razão sempre.
Mas também não consigo ser assim sempre feliz.
Deixo aqui uns cadinhos de razão né… é prudente.
Ultimamente tem me interessado tudo que posso controlar.
Algo para se fazer afinal.
Dá agonia demais apenas ser. Dá trabalho.
Não sei Mestre, como me aceitou aqui.
Deve haver algo de dor que você tenha transcendido, para poder me deixar observar aquela mulher.
Algo de indolor em você, que me constrange.
Algo entre você e a mulher também me deixa desconfortável, pensar que vocês parecem estar sempre em processo de continuidade.
Quando eu tento silenciar, me vem um cansaço. Me acostumei com a luta.
É de tempo antigo que me lembro de como era deitar na cama e só dormir.
Mestre, você sente saudade?
H.C. 🌻🦅
06-02-21