Kobayashi era um nissei calvo, já na casa dos sessenta anos, desses homens cuja aparência parece carregar o peso de várias vidas. Contava que, no Brasil, havia sido diretor de uma grande indústria de panificação. Tivera cargo, prestígio e conforto. Depois vieram as dívidas, os negócios malsucedidos, a queda lenta e inevitável. Quando perdeu o emprego, viu-se encurralado pela realidade. Sem alternativas, atravessou o oceano e foi parar no Japão, como tantos outros que chegaram carregando na mala não apenas roupas, mas fracassos, esperanças e contas a pagar.
Sua história era triste, sem dúvida, mas possuía também algo de tragicômico, como aqueles roteiros que ninguém escreveria por parecerem improváveis demais, mas que a vida insiste em encenar.
A maioria dos descendentes de japoneses e seus cônjuges desembarcava no Japão movida por razões práticas. Quase ninguém vinha em busca de aventuras ou realização pessoal. Vinham para fazer dinheiro. Alguns sonhavam abrir um negócio ao regressar ao Brasil; outros buscavam apenas escapar do cerco das dívidas. Kobayashi pertencia a esse segundo grupo.
Levava uma existência austera, quase ascética. A maior parte do salário seguia diretamente para o Brasil, e ele não gastava um iene além do estritamente necessário. Morava em um alojamento precário dentro da fábrica. No verão, especialmente em julho, os termômetros ultrapassavam facilmente os quarenta graus. O calor úmido parecia dissolver os pensamentos e dobrar os corpos, mas Kobayashi suportava aquilo com a resignação de quem acreditava que o sofrimento era apenas parte do caminho.
Não possuía celular. Nos dias de folga, caminhava até um telefone público e fazia suas ligações usando um cartão telefônico, como se permanecesse preso a uma época que já havia desaparecido para o resto do mundo.
Também nos dias de folga cultivava um hábito peculiar. Pela manhã, montava em sua bicicleta e seguia até o aeroporto de Itami. Ali permanecia durante horas, sentado em um banco, observando o movimento. Não embarcava em lugar algum. Não encontrava ninguém. Apenas assistia.
A seu modo, aquela era sua forma de viajar.
Enquanto os aviões decolavam e pousavam, Kobayashi escapava da monotonia da fábrica, do alojamento sufocante e, sobretudo, da solidão. Ao cair da noite, retornava silenciosamente para o dormitório, ignorando tudo o que o Japão tinha a oferecer. Nunca demonstrava interesse pelos templos antigos, pelos castelos, pelos parques ou pela culinária local. Contentava-se com marmitas compradas no fim do expediente, quando os supermercados as vendiam com desconto. Cada moeda economizada significava mais alguns ienes enviados ao Brasil.
Muitas vezes me perguntei o que passava pela cabeça de Kobayashi durante aquelas longas horas no aeroporto.
Talvez observasse os aviões imaginando qual deles o levaria de volta para casa. Talvez revivesse discussões antigas, reconversasse mentalmente com familiares dos quais havia se afastado ou revisitasse os erros que o conduziram até ali. Quem sabe recordasse projetos interrompidos, oportunidades desperdiçadas, sonhos que nunca chegaram a amadurecer.
Ou talvez não pensasse em nada.
Talvez apenas contemplasse o vazio.
Havia nele uma solidão tão concreta, tão tangível, que parecia ocupar o banco ao seu lado.
Quando faltava apenas um mês para regressar ao Brasil, Kobayashi resolveu conceder a si mesmo um raro presente. Depois de anos vivendo praticamente como um monge, decidiu celebrar sua despedida do Japão em um bar.
Foi lá que conheceu uma jovem coreana, provavelmente com menos de trinta anos. Conversaram durante horas. Beberam. Riram. Pela primeira vez em muito tempo, Kobayashi parecia genuinamente feliz. Como cavalheiro de outra época, pagou todas as bebidas.
A certa altura, a moça começou a falar de seus problemas. Contou histórias de dificuldades financeiras, de dívidas acumuladas, de aflições pessoais. Falava com tamanha emoção que as lágrimas lhe brotavam naturalmente dos olhos. Então pediu um empréstimo. Garantiu que devolveria tudo em poucos dias.
Kobayashi ouviu.
E acreditou.
Aquele homem que há anos economizava cada centavo, que suportava o calor sufocante, a comida barata e uma vida sem prazeres, sentiu-se tocado pelo sofrimento daquela desconhecida. Sem hesitar, entregou-lhe o dinheiro que havia reservado para sua passagem de volta ao Brasil.
Talvez visse naquele gesto um ato de bondade. Talvez enxergasse uma oportunidade de ajudar alguém. Talvez apenas desejasse sentir-se importante para outra pessoa, nem que fosse por um instante.
Quando chegou o dia combinado para a devolução, retornou ao bar.
A moça não apareceu.
Voltou no dia seguinte.
Nada.
E no outro.
Nada novamente.
Foi então que a ficha caiu.
Caíra em um golpe tão simples que qualquer observador teria percebido desde o início. Mas, para Kobayashi, a questão não era apenas o dinheiro perdido. O verdadeiro prejuízo estava na esperança que lhe haviam arrancado.
Humilhado, desesperado e profundamente arrependido, chorava como uma criança.
No fim, foram os amigos que organizaram uma vaquinha para custear sua passagem de volta ao Brasil.
Histórias como a de Kobayashi são mais comuns do que parecem entre brasileiros que deixam suas famílias para trabalhar no Japão. Há algo na combinação de solidão, trabalho exaustivo e vida espartana que desgasta lentamente as defesas emocionais. Com o tempo, muitos passam a buscar desesperadamente algum sinal de afeto, alguma promessa de felicidade, alguma fuga para além da rotina cinzenta. E é justamente nesse momento que costumam tomar decisões que, em circunstâncias normais, jamais tomariam.
Nunca soube o que aconteceu com Kobayashi depois de seu retorno.
Será que conseguiu quitar as dívidas? Será que abriu o negócio com que sonhava? Será que finalmente encontrou a paz que tanto parecia perseguir?
Não faço ideia.
O que sei é que existem inúmeros outros Kobayashis espalhados entre Brasil e Japão. Homens que vão e voltam sem nunca realmente chegar. Trabalham, economizam, retornam cheios de planos. Investem em negócios que fracassam, acumulam novas dívidas e, pouco depois, embarcam novamente para o Japão.
Vivem presos a um movimento circular, como aviões que nunca recebem autorização para pousar. Estão sempre partindo e sempre voltando, girando em torno da mesma esperança, incapazes de escapar da órbita silenciosa que construíram para si mesmos.