O quanto você se permite ser tocado?
O que toca você?
Se você se deixa conhecer, o que fica exposto?
A vida é inteirinha, no cotidiano, um ato puro de filosofia.
Cada sobra que tentamos encaixar, cada peso que desejamos das costas retirar, cada contra-fluxo que nos obriga a um eterno retorno, cada refazer, desconstruir, todo ser do contra, o tempo que tem de se esgarçar e aquela incerteza no fim do fundo, nos leva ao inevitável filosofar. Levitar ás vezes é possível.
Se somos feitos por amor, obra amorosa do acaso destino, o amor à sabedoria é o que nos resta. Ainda que não saibamos o quanto nos define.
O medo. Eu sinto. Eu sento. Eu solto. Eu surto. Eu solicito a providência interna de alguma decência de coragem.
É com o coração que pensamos?
Será mesmo a massa cinzenta, responsável por ponderar a filosofia que nos circunda e que nos mantêm reféns perplexos?
Intermináveis reflexões, valas sem fundo.
Não, não, isso me remete mais a reflexos de espelhos.
Por que quando me descuido e me deixo ver, eu temo essa imagem?
Todo dia eu tenho de estar comigo.
O espelho é uma dupla fuga. É um eu ao quadrado.
Pronto. Cheguei nos cantos, quadrados.
Nesses cantos onde muitas vezes estou.
E que careço eternamente de alguma parede redonda.
É porque eu, dos meus cantos, sei fazer tantas coisas.
Sou capaz de bem querer rápido. É como pedir um auxílio-família. Parece urgente.
Imagino um lugar lotado de mesas onde as pessoas iriam pra conversar e sentadas entre elas haveria os espelhos. Seria pois, possível as conversas, sustentarem?
Eu sinto que nos Congados e na festa mágica do Carnaval, é que o povo está ali de verdade, sem máscara. Sim, porque são camadas e mais camadas de medo e meias- verdades que assolam até a palma dos pés fincados na áspera realidade da maioria do povo do meu país. Tudo que é livre por uns dias de festa, tem de abastecer pequenos relances e restos de almas, que andam perdidas o ano inteiro. E à paisana.
Pensar que espelhos são feitos de sal químico.
O sal. A imagem no espelho.
O que você vê?
Um corpo.
Um copo.
Um copo meio cheio.
Um corpo meio cheio.
Um corpo meio vazio.
Um corpo que dança?
Um pouco criança?
Criança-tem de ser, pra crer.
Crer que o amor existe.
Crer que alguém se aproxima e se deixa ver. Gera responsabilidade.
Habilidade de sentir a tempo de cuidar, ponderar, melhor escolher.
Para colher fruto bom. É que revirar-se do avesso, deixar-se perceber, como é que chama isso mesmo?
E quando não houver mais tempo, nenhuma luta, pouca luz, nenhum espelho, e a vontade de se defender desaparecer?
E em um dia comum, compreender que mastigar lentamente um alimento bom, é puro luxo filosofal. Olhar nos olhos de alguém e ver, então, transcende.
As pessoas estão ávidas por contato. Buscam e refinam suas buscas em tudo que está lá fora.
Há coisa muita.
Cada vez mais ação.
Meu coração reclama ligeiro, em descompasso.
Ele me deixa ver que o Tempo é não linear. Foi importante que eu vi, cada rosa.
Quando esvazio, posso ver muito.
Sensações migratórias, batendo em peitos soltos, uma imortalidade que pede reflexão.
Nem nascemos.
A arte do encontro.
Vamos rever a que é dada a raça humana. Vejo o tom do seu braço branco. Meu olho nu, firma pra ver, admitir, admirar.
Continuo buscando a outra cor. Volto pro Carnaval. Mas lá também te vejo. E você samba mais do que eu.
Tá. É raça?
Ou é espécie? Resolve, forçar essa barra?
Os caboclos sabem que não.
Não tem mais condimento que dê conta de temperar isso. Dá trabalho ir além. Falos e vulvas não dissolvem a questão.
O músculo que bate, continua intacto, só bate. Espera por doce resolução.
Mas a paz não é um caminho. Não é sobre isso que eu vejo nenhuma construção.
Mulher de uso, homem sem dificuldades.
Mulher difícil, homem resoluto?
Mas e a espécie?
E disso que eu quero falar. A que viemos?
Eu gosto mesmo é do que não conheço, na cor, no jeito, na cultura, na contra-fé, no não dito.
O espelho, em seu melhor dia, foi quebrado.
Há de se voltar a se permitir, deixar-se ver. Ao menos um pouquinho.
O tempo é pouco, mas reverbera. Soa bem para a Alma permear-se para valer. O medo nunca impera.
É impossível ter olhos de ver, sem sua solitude que te conduz ao tempo bom de descortinar o coração. É um chamado.
E são fenômenos que não existem para nada. Nada pedem, nem vislumbram, a não ser um momento verdadeiro de eternidade. Deixar-se tocar é, pela milésima vez compreender que será fragilizado. Fragilizado para viver mais.
Não há garantia, nem nome há.
A vida pede uma espécie de investigação onde tem-se de desconfiar de tudo que conseguimos ser, até então,
para sermos permeáveis.
Semear o trigo…
’Debulhar o trigo,
recolher cada bago do trigo,
forjar no trigo o milagre do pão,
e se fartar de pão’.
E hoje sou
H.C. Borges Tavares.
🌻🦅
00:38h
03-08-26