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Delírios dos Meus Sonhos.

Quarenta Graus

De tempos em tempos o Nordeste passa por um período extremo de seca. Durante séculos o povo ficou esquecido do poder público resistindo ao sofrimento com a fome e a falta d’água. Mas quando a chuva vem traz consigo alegria e fartura.

Quarenta Graus

 

 

 

No meio de uma estrada deserta.

 

Sozinho. Imaginando chegar a lugar algum. E a terra vermelha batida por alguns carros que passavam e a toda hora uma cavalgada de migrantes à procura de um novo lugar para se refugiar. A poeira levantava a cada passo e formava um círculo de pó sobre os meus calcanhares. Os calçados do tipo “chinelo havaiana” estavam desgastados por dentro, logo depois dos botões das correias, deixando parte dos calcanhares calçados, e parte descalço; consequência das inigualáveis pernas tortas e o tempo de uso ultrapassado.

 

O calor de quarenta graus fervia os meus miolos, cada passo era uma eternidade. A vegetação ao meu lado caminhava sonolenta e sorrateira, a terra seca e o calor forte queimaram as folhas das pequenas arvores de tal forma, tão intensamente, quanto uma rajada de fogo passando rapidamente sapecando cada folha, cada galho, cada arvore.

 

Os açudes engoliram até a última gota d’água tentando sobreviver, em busca da última vida contida no fundo do poço. A lama acumulada, com sol escaldante formou rachaduras por toda parte, desenhando um grande mapa em seu solo. Em cada rachadura havia uma cobra procurando lugar para se esconder do calor e do sol. Em cada bloco uma carcaça de peixe.

 

“Eu ficava imaginando os últimos minutos desses seres, debatendo-se na lama, agonizantes, pedindo socorro e sem saída. E nessa agonia liberavam em último suspiro as últimas esperanças de vida; ovos que poderão eclodir mais tarde com a chegada da chuva”.

 

E eu ali… sem água, sem roupa, sem chapéu.

 

Eu desconhecia como havia chegado até lá. Comparei aquele lugar com o inferno, mas se nunca tinha estado no inferno, não podia afirmar tal pensamento. Só imaginei que lugar tão horrível, não existia no mundo real, no “paraíso”. 

 

E o que eu estava fazendo lá? Era uma incógnita.

 

Quanto mais o tempo passava a sede aumentava e minha pele ardia.

 

Olhei para o céu e vi uma pequena nuvem pairando no ar, desejei estar mais perto e me aconchegar na sua sobra. Porém, quanto mais eu caminhava ao seu encontro, mais ela se distanciava. Eu queria correr e alcançá-la, mas não tinha forças. Arrastava-me sob o sol sem esperanças de poder mudar o cenário.

 

Na imensidão da planície à minha frente, alguma coisa reluzia a três ou quatros quilômetros de mim. Parecia uma lata de alumínio, mas movia-se ao passo que me aproximava. Fiquei curioso. Poderia ser uma miragem? Não sei. Tive uma sensação estranha de arrepios em meio ao calor de quarenta graus, porém eu acho, que aquela hora, já estava chegando, sei lá, a uns cinquenta graus. Mas resolvi tentar chegar mais perto.

 

Caminhando cada vez mais lento, sem força, sem coragem. Ajoelhei-me. Uma voz me dizia: vai, vai, vai… você vai conseguir…

 

Fui arrastando o joelho lentamente. A cada passo esperava um minuto, e outro passo, e outro minuto. Faltavam aproximadamente cinquenta metros e então pude perceber o que havia naquele ponto brilhante; na verdade não tinha certeza, mas a minha vontade me fazia acreditar numa garrafa plástica cheia d’água que brilhava sob o sol e refletia como um espelho em meus olhos.

 

Meu desespero aumentava porque não conseguiria mais chegar até ela. Já não sentia mais as minhas pernas e os meus braços se entregavam como um náufrago que desiste de lutar contra a correnteza e deixa-se levar por ela.

 

Mas em poucos instantes o mundo se vira e, de repente, nuvens rápidas se formam e se transformam, escurecem o tempo e desaba uma tempestade arrasadora.

 

Acordei com a voz do meu amigo Everaldo perguntando se eu estava bem.

 

Quando olhei estava ditado na calçada da Igreja e a sombra que me protegia quando me deitei já não existia mais.

 

Coincidentemente, no ano de um mil novecentos e oitenta e três, aconteceu a pior seca de toda a minha história.

 

Eu vi, aos poucos, o rio, o pequeno rio que cortava aquele povoado onde eu vivia, que jamais havia ficado sem água, eu vi seu leito desaparecer, onde corria água das mais limpas e cristalinas, restaram areia e barro, restou a vegetação que tomou conta do leito seco.

 

Eu vi os açudes se transformarem, a água evaporar, sumir; a terra rachar, os peixes morrem.

 

Eu vi a vegetação queimar, os pássaros migrarem sem destino. O gado morrer de sede e fome. Eu vi pessoas… Gente, de carne e osso, secar a carne, e enterrar o osso.

 

Eu vi a vida pelo avesso.

 

Lembrei-me de um sonho que tive deitado na calçada da igreja.

 

Mas, enfim, a chuva veio, no ano de um mil novecentos e oitenta e quatro, bem no final do ano. Que alegria meu Deus! Que alegria! Houve festa. O povo foi encontrar as águas do rio antes mesmo que chegassem. Como foi lindo ver a força da água inundando cacimbas, quebrando barreiras, molhando o chão.

 

 

 

Euzébio Silva

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