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Imagem de destaque da publicação "A oncinha, o jiló e o paraíso"

A oncinha, o jiló e o paraíso

O paraíso não me parece conveniente

Queiramos ou não, acreditemos ou não, desejemos ou não, nós somos a oncinha. (A foto é de 2019, quando assistimos assustadoras queimadas no país à deriva).

Nesta semana, em um post engraçado, uma querida amiga dizia que se ao invés de maçã o fruto proibido fosse jiló, nós ainda estaríamos no paraíso.

Eu discordei, é claro. Não tenho dúvidas de que comeria o fruto proibido, entre outras coisas.

Mas o assunto me levou a algumas reflexões: quereria eu estar no paraíso? E concluí que não, não gostaria. E explico.

Em primeiro lugar, detesto estar em lugares cheios e o paraíso anda abarrotado. E afirmo porque observo a realidade e as pessoas à minha volta.

No paraíso encontraremos todos os que amam os cachorrinhos e os gatinhos, que choram quando vêem um animalzinho abandonado nas ruas, mas que apoiam políticos que defendem a caça esportiva (sim, isso ainda existe), que apoiam o desmatamento que mata milhões de animais, que apoiam o garimpo ilegal, a grilagem, que matam não só animais, mas seres humanos também.

No paraíso encontraremos todos os que são radicalmente contra o aborto, que não são capazes de entender que isso é um problema de saúde pública, mas que fecham os olhos ou fazem cara de paisagem para a morte de crianças negras ou pobres nas favelas por fome ou balas perdidas. Afinal, bandido bom é bandido morto.

No paraíso encontraremos todos os vegetarianos ou veganos, dos mais evoluídos, mas que, também, apoiam os políticos que desmatam, incendeiam, usam agrotóxicos proibidos no mundo, para produzir ração para o gado ou criar gado.

No paraíso encontraremos todos os incorruptíveis que sonegam impostos, que pagam pela criação de notícias falsas, que abusam do poder em suas igrejas e empresas, que roubam ou conduzem os humildes e ignorantes de acordo com seus interesses.

No paraíso encontraremos todos os que arrotam elogios à educação dos países do hemisfério norte – educação que eles próprios não têm -, mas apoiam políticos que pregam a destruição das nossas universidades, o desrespeito aos professores e a destruição da cultura do nosso povo.

E, ainda, encontraremos um monte de colunistas perfeitos e muito bem pagos pelos seus patrões, que também lá estarão…

Não, não me fascina o paraíso e não tenho muita escolha. No inferno, ao menos, as regras são mais claras e rígidas. Não há hipocrisia. Pau, pau, pedra, pedra. Só peço que eu consiga levar um dinheirinho para que, entre um castigo e outro, nas horas vagas, eu possa gastar, pois tenho a mais absoluta certeza que lá, no inferno, há de haver um quiosque que venda cerveja.

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O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

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