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Inconclusos Online

Lula

VOTE SEM PRECONCEITO

Por que precisamos de mais quatro anos de Lula

O texto critica o histórico político do leitor, apontando escolhas guiadas por preconceito contra Lula, apoio a governos desastrosos, neacionismo e alinhamento a projetos autoritários, alertando contra o ódio político

Eu sei: você nunca gostou do Lula. E essa ojeriza é antiga, vem lá dos tempos em que ele ainda era líder metalúrgico.
Afinal, aquilo não podia dar certo. Nordestino, pau-de-arara, torneiro mecânico, quase sem estudo. Collor surgiu como a salvação contra o “sapo barbudo”. Mas Collor, logo no começo do governo, roubou a sua poupança. Depois, deu no que deu.
Mais tarde, a escolha parecia óbvia: entre um intelectual e Lula, claro, o intelectual. Por duas vezes, você ficou com o intelectual que entregou a Vale do Rio Doce por preço de banana, usou o procurador-geral da República para blindar a própria gestão e entregou o país com inflação altíssima. Tá certo, o Plano Real foi bom. Mas parou por aí.
Por fim, o resiliente Lula disputou a quarta eleição e venceu. Você torceu o nariz pelos mesmos motivos de sempre e apostou que ele afundaria o país. Mas não afundou. Lula acabou fazendo um ótimo governo. E até você reconheceu. Só que creditou o sucesso inteiramente aos ministros, afinal, um nordestino metalúrgico jamais conseguiria sozinho. Você dizia que não era ele quem governava.
Ah, mas aí surgiu a chance de tirá-lo do poder. Veio o mensalão e você partiu com tudo para cima de Lula. Claro: pobre tem que ser corrupto, pobre tem que roubar. Você esqueceu até do Collor. Só que não houve uma prova sequer contra Lula. Pelo contrário, os bandidos eram os de sempre: Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson.
Acabou o segundo mandato e Lula saiu com o recorde de 87% de aprovação, elegendo sua sucessora. Mas, como ela havia sido indicada por ele, tinha que ser chamada de anta, mesmo tendo estudo. Ela estava com 67% de aprovação em junho de 2013 quando você vislumbrou a oportunidade de virar o jogo: vestiu a camisa da seleção e foi às ruas para derrubá-la com a acusação postiça que a peruca do Luiz Fux: pedaladas fiscais. Crime que nunca existiu, mas, se não há crime, a gente inventa, não é mesmo?
O golpe foi dado, você festejou e Temer assumiu. Em apenas dois anos, Temer quase levou o país à bancarrota. Enquanto isso, você comemorava o surgimento de um novo herói nacional que, enfim, prenderia Lula. O motivo? Um apartamento tríplex no Guarujá: três Minha Casa, Minha Vida empilhados, na definição de Maluf. A prova de que era propina? Ah, detalhe menor. Veio o sítio de Atibaia: tinha um pedalinho da dona Marisa, logo, só podia ser de Lula. E se fosse, qual o crime? Ele não teria condição de comprar um sítio? Não importava. O que importava é que pobre não pode ter sítio; se tem, foi por roubo.
Lula foi preso e você comemorou de novo. 580 dias de cárcere. As provas? O jornalista antipetista Reinaldo Azevedo esmiuçou, junto com amigos juristas, toda a sentença de Sergio Moro. Até hoje, Reinaldo desafia qualquer um, inclusive o próprio Moro, a mostrar onde estão as provas. Não há.
Em 2018, a escolha nunca pareceu tão fácil. Com Lula fora do páreo, havia duas vias: um intelectual (lembra que você escolheu FHC duas vezes porque ele era intelectual?) chamado Fernando Haddad e um deputado com seis mandatos na Câmara, sem um único projeto em favor do povo, que fazia arminha com a mão e prometia “acabar com a petezada”. Ah, e durante a votação do impeachment de Dilma na Câmara, homenageou o pior torturador da ditadura. Opa, isso sim te interessou. Não o desenvolvimento do país, a saúde ou a educação, mas acabar com a petezada. E lá foi você votar em fascista.
Não demorou para qualquer um perceber a furada. Muito antes da pandemia, Jair Bolsonaro já indicava que estava na presidência para implodir a democracia. Veio a pandemia e o capitão negou as vacinas até onde pôde. E você não se vacinou porque o mito garantiu que quem tomasse viraria jacaré. Você sobreviveu, mas com certeza viu algum parente ou amigo morrer por falta de imunização. O mito chegou a negar oxigênio para as pessoas que morriam aos montes em Manaus, imitando os estertores de quem sufocava. Resultado: mais de 700 mil mortes, das quais cerca de 400 mil poderiam ter sido evitadas.
O Brasil voltou à inflação de dois dígitos, a gasolina disparou e retornamos ao mapa da fome da ONU. Lembra da fila do osso? Mas, e daí? Você não era economista, né?
Lula foi inocentado pelo STF, disputou as eleições e venceu Bolsonaro. Este fugiu para os Estados Unidos, deixando para trás uma bomba-relógio: uma tentativa de golpe que previa até o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. Se desse certo, voltaria ao poder, instalaria uma ditadura e ficaria na cadeira por pelo menos vinte anos.
Enfim, antes mesmo de tomar posse, Lula precisou negociar uma medida provisória porque Bolsonaro não deixara orçamento para o governo seguinte. Foram quatro anos de reconstrução de terra arrasada, com Lula viajando o mundo para destravar investimentos. Mas você preferia dizer que ele só saía para “passear com a Janja”. Os programas sociais voltaram, a inflação cedeu, o desemprego caiu aos menores patamares da história e a Farmácia Popular foi ampliada, entre outras medidas.
Mas, meu Deus, você precisava de algo para criticar. E foi aí que o seu conceito de “patriota” se distorceu de vez. Enquanto o clã bolsonarista pedia sanções e intervenções estrangeiras contra o próprio país, você aplaudia, jogando no lixo qualquer resquício de soberania nacional em troca de uma alucinação chamada de cruzada anticomunista.
Agora, estamos diante de mais uma eleição e você, movido por um preconceito destilado ao longo de décadas, reluta em votar em quem colocou o país nos trilhos. Prefere o candidato miliciano que nem plano de governo tem, que promete repetir a gestão do pai, curtindo jet-ski enquanto o país enfrenta tragédias climáticas, que congelará aposentadorias e que já se comprometeu a entregar nossas terras raras para potências estrangeiras.
Enfim, ainda há tempo para se livrar desse ressentimento. Afinal, o ódio, antes de atingir os outros, faz mal é para você mesmo.
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O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

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