Pular para o conteúdo principal

Inconclusos Online

CK-e-Drummond-Copia

QUERO-ME-ACRE

Todo porra louca tem um pouco de poeta...

Um poeta louco, de estrada, que se diz encarnar o espírito de Thoreau, abomina Jack Kerouac. Diz amar o trabalho, até sofre com sua rudeza e seu estilo selvagem de caboclo rude, sempre de bolsos vazios. É latino, e se diz escravo emancipado; escreve, mas é ignorado; por isso, ignora…

Católico, louco, místico, peregrino,
poeta, andarilho… Sou Thoreau.

Pela lei, não posso ser Jack.

Amo, trabalho, sofro… sou selvagem,
caboclo rude, latino, escravo emancipado,
ignorado… Eu vivo ignorando a liberdade do vento leste.

Não abandonei a postura latina de amante.

Sou romântico, sou cafona e abuso muito das vogais.

Escrevo os meus protestos, boicotando as consoantes
E, se de repente elas decaem, os meus versos emitirão sinais.

Ladinos, obsoletos, ineptos, dormidos, eles querem
ser espertos, ou atemporais.

A vida é a chuva que amedronta o meu barraco.
a vida é a vitrine que só me traz bicos.

Olhando a minha posição no tempo,
nada me consta.

No teatro do mundo sou escravo, ralando

por papéis atípicos.

Se nada fui até hoje, serei neste inverno equinocial
um cavaleiro intrépido.

Se eu conseguir me manter na cadeia, detido,
serei senhor de estado, terei comida e o respeito

das leis. E se eu for mais esperto que um pastor,
serei um preso de valor.

Serei uma espécie de senhor ensinando a Palavra

a déspotas que fazem bicos de deputados.

Por absoluta falta de dinheiro, abandonei a cerveja,
arrumei um monte de brotoejas, escrevendo para um filho
que não me beija, devido aos meus bolsos sem um rés

Falsificado.

Costuro a própria roupa, modelo meus belos sapatos,
mas não consigo escrever um reles destino.

Ave mãe cheia de graça, acolha-me.

Minha santa Madonna, me abrace, me escolha
antes que a morte fure a minha bolha.

O mundo já conheceu meus desatinos.

A dívida escolheu-me. A vida desprezou-me.
A noite envolveu-me em trapaças.
Nada mais faz sentido, não vou ferrar minha couraça.

Quem foi o pulha que me dedurou?

Eu não consigo uma nota na coluna dos pervertidos.

Eu encheria o mundo de dor, do caos dos desocupados.
Se Deus não me desse a graça de escrever
alguns bons versos… Mas Ele me deu.

O mundo é perverso para quem é tolo.

Amar, trabalhar, sofrer… eis o que sobrou para mim
neste circo medonho.

Aqui está todo meu legado.

Andei pelas ruas da América, solitário, perdido

entre tantos rostos infelizes.

Percorri as grandes estradas do mundo,
cheguei a ver a luz noturna do arco-íris.

Quase a toquei pela força da iluminação sagrada.
Como encanto, afora as almas, afora os bodes,
afora os porres e grilos, deixei o arco-íris na base,
baseado no que ascendi e não passei.

Não fui aceito no mundo.

Há descaso mais descabido?

As minhas placas agora já se desmoronam.

O tempo cozeu minhas cores, mas, enfim,
tiraram-me do ventre vivo, livre,
banhado e ainda inteiro,
sonhando com uma nova cama.

Quero-me acre, quero-me acre, quero-me acre!

Antes que me acusem de ter chegado aqui
bastante corrompido, e sem o lacre.

Antes que a voracidade dos bundões arrependidos
me confunda. Antes que aterrorizem a minha poesia
com o massacre. Quero-me acre. Quero-me acre.
Quero-me acre…

Carlos Kahê

 

 

 

Curtir
Compartilhar

O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

Deixe um comentário