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Inconclusos Online

Imagem de destaque da publicação "A GALERIA DO ROCK: PRIMÓRDIOS"

A GALERIA DO ROCK: PRIMÓRDIOS

Uma crônica focalizando Música e Urbanismo

Uma crônica autobiográfica narrando minha interação com um importante edifício comercial do centro de SP, sob o ponto de vista de um cidadão que estudou Arquitetura e Urbanismo e gosta muito de Música

Nota inicial:

Por um lamentável descuido, não registrei a data em que esta crônica (com a qual faço minha estreia no “Inconclusos”) foi criada. Algumas “palavras-chave” me dão a pista de que pode ter sido em 2003, ou final de 2002.

Foi um texto que uma amiga me encomendou, para uma revista em que ela colaborava. Nunca soube o nome da revista, e tudo indica que não foi publicado. Ele ficou guardado por muitos anos, até que resolvi mostrá-lo para vários amigos. Alguns taxaram o texto de homofóbico, por causa de uma única palavra (procure bem que você encontra). Outros poderão achar que há apologia a drogas (mais uma palavra isolada, mais fácil de achar, mas a apologia é desmentida no próprio decorrer do texto).

Em janeiro de 2014 utilizei a crônica para inaugurar um blog onde publiquei assuntos dedicados a música, até agosto daquele ano.

Segue o texto que “puxei” hoje do blog, fazendo algumas adaptações:

A GALERIA DO ROCK: PRIMÓRDIOS

Fui informado de que esta publicação será lida em todo o Brasil. Então talvez muitos leitores acharão muito pedante, a princípio, o tema desta crônica: um paulistano fazendo uma apaixonada exaltação de um shopping-center!

Shopping-centers: não existe nada mais antipático que esses templos do consumo e do consumismo, repletos de patricinhas e mauricinhos. Mas vou falar de um shopping diferente.

Tecnicamente, não há por que não chamar de shopping-center o condomínio Grandes Galerias, um edifício com cinco andares de lojas que liga a rua 24 de Maio à Avenida São João, em frente ao Largo Paissandu, no centro velho da cidade. O curioso é que este edifício, com uma arquitetura cheia de curvas a la Oscar Niemeyer, foi concebido pelo menos uma década antes que o Shopping Center Iguatemi, o primeiro centro de compras em S. Paulo a receber esse nome americanizado.

Durante os anos 70 eu costumava vasculhar os saldões de ofertas das lojas de discos. Foi quando comecei a ser realmente um colecionador de discos. E no ano de 1976 conheci aquela que foi a primeira loja de discos daquela que hoje todos conhecem com o nome de Galeria do Rock.

A loja se chamava Wop-Bop, e estava perdida no segundo andar da galeria, em meio a um comércio que eu honestamente não lembro o que era. A primeira vez que entrei lá, o René e o Toninho, proprietários do pedaço, exibiram-me discos usados de artistas que eu achava que nunca seriam lançados no Brasil: nomes como The Yardbirds, Captain Beefheart, Buffalo Springfield, Jethro Tull, Jefferson Airplane… Tudo a preços um pouco mais baixos que os do Museu do Disco, que era a principal importadora de SP, mas mesmo assim um tanto quanto inacessíveis para o meu bolso de estudante.

Não cheguei a ser um freqüentador assíduo da Wop-Bop. O que realmente me tornou um dos fundadores da Galeria do Rock (não como lojista e sim enquanto consumidor) foi quando, em 1978, fiz amizade com o Grilo Falante, proprietário da segunda loja (cronologicamente falando) da Galeria do Rock. Foi lá que me tornei parte de uma turma de fanáticos por rock dos anos 60. O primeiro contato que fiz lá foi com um certo Richard, com o qual trocava muitas idéias sobre o conjunto The Kinks. Demorei para saber que o nome dele não era Richard: era um apelido em homenagem ao guitarrista Keith Richards, dos Rolling Stones.

Foi o próprio Richard que começou a apelidar todos os frequentadores do Grilo Falante, com sobrenomes bem “underground”. Formou-se assim uma turma de malucos e semi-desocupados: o Valdir Moon, o Mauricio Watts, o Lauro Kantner, o Neno Quaife, o Flavio Ayler, o Pedro AoxomoxoA, o Paolo Chepito Areas… e eu era o Claudio Zappa!

Eu era recém-formado em Arquitetura e, em meu primeiro emprego, dava aulas de desenho numa escola do interior, apenas dois dias por semana. Nos outros dias, eu passava praticamente todas as tardes na companhia daqueles malucos. E trocávamos idéias sobre rock (que na época era uma coisa ainda um pouco marginal), e muita contracultura. O Grilo colecionava histórias em quadrinhos do Robert Crumb e dos Freak Brothers; eu consegui um livro (sem capa) do Abbie Hoffman, um dos gurus da esquerda radical dos Estados Unidos, pelo qual o Grilo me ofereceu um disco do The Who. Mas no dia em que realmente fiz amizade com o Grilo nossa conversa foi mais sobre a Tropicália: comparamos nossas coleções de raridades do Gilberto Gil, e o Grilo saiu vencedor pois ele possuía o compacto com “A Luta Contra A Lata Ou A Falência do Café”, um lado B muito engraçado que eu escutava na Rádio Excelsior em 1968 (o lado A do compacto não podia ser tocado, tratava-se da polêmica “Questão de Ordem”).

Passavam-se as semanas e eram apenas aquelas duas lojas, freqüentadas por turmas rivais, já que o pessoal da Wop-Bop, no segundo andar da Galeria, era mais chegado ao rock “new wave” de Patti Smith, Blondie, Elvis Costello. Nós da Grilo Falante, um andar abaixo, curtíamos mais Jimi Hendrix, Frank Zappa, Allman Brothers, e dizíamos que o som dos nossos rivais era “rock para gays”. Mas tanto uns como outros admirávamos os Kinks, os Byrds, os Beach Boys, os Zombies – aliás, este último conjunto eu só fui conhecer depois que o Renê e o Toninho escreveram a seu respeito numa revista que eles publicaram (um dos primeiros “fanzines”, revistas independentes sobre música). Essa revista contava com um terceiro colaborador, um tal de A.C.Senefonte, que mais tarde ficou famoso sob a alcunha de Kid Vinil…

Meses depois surgiram mais duas lojas, a Music House, do Márcio e do Ségis (já falecido), e a Baratos Afins, do Luiz Calanca (ambas estão lá até hoje). Foi nessa época que a nossa turma cometeu um ato ousado: o Grilo e o Richard fundaram o fã-clube A.S.A.S., isto é, Amigos do Som dos Anos Sessenta e, para marcarmos a ocasião, planejamos um ato público em frente ao Teatro Municipal, onde seria acesa uma FOGUEIRA na qual seriam queimados discos de Donna Summer, Village People e todos os ícones da discotèque, que era o que mais odiávamos! Durante duas semanas juntamos uma pilha de dezenas (talvez uma centena) de LPs que considerávamos porcaria. No dia marcado, fizemos uma passeata de umas vinte pessoas, lemos um manifesto “contra a música de baixa qualidade”; só não houve fogueira porque a polícia tomou conhecimento do ato e, SABIAMENTE, nos proibiu de fazer a tal queima, que acabou sendo substituída por uma caminhada até a frente do cine Metro, na avenida São João, que naquele momento exibia uma sessão dupla com filmes do John Travolta! O evento chegou a ser noticiado na Folha de São Paulo e no Jornal da Tarde (este último fez um comentário crítico advertindo que nossa frustrada fogueira “misturava lenha de florestas diferentes”, já que junto dos ícones da discotèque seriam queimados também discos dos Sex Pistols, Ramones e Kiss).

Depois de fundarmos o clube ASAS, lançamos a revista ASAS que, hoje admito, era uma tentativa descarada de imitar o “Wop-Bop Fanzine”!

Com apenas essas quatro lojas de discos, esses foram os primórdios da Galeria do Rock. As demais lojas daquele centro comercial eram, predominantemente, de materiais de fotografia e silk-screen. Havia também vários alfaiates. No restante, a maioria das portas simplesmente estavam fechadas, sem uso (até pouco tempo atrás, que eu saiba, o quarto e quinto andares continuavam sub-utilizados). Um belo dia, comentávamos que surgira uma quinta loja, a Punk Rock Discos! Mais inimigos em potencial! Mas aí surgiu logo depois uma sexta loja, uma sétima, uma oitava, e aí deu-se o fenômeno: em poucos meses os dois primeiros andares da galeria estavam tomados por lojinhas de discos. Antes disso, a Wop-Bop mudara-se para a rua Barão de Itapetininga, não sem antes distribuir um folhetinho comunicando a mudança de endereço “devido a alguns grilos e outros baratos…”

Com a mudança da Wop-Bop e o fechamento da Grilo Falante, poucos anos depois, fechou-se um ciclo. Hoje a Galeria do Rock tornou-se uma Meca para várias tribos: além dos roqueiros, fervilham lá turmas de skatistas, de tatuadores e tatuados. No andar térreo estão os coreanos, com muitas lojas de roupas; no subsolo, lojas de funk e black music. Os roqueiros se dividem: a tribo maior é a dos metaleiros (que abominam este termo, inventado pela Rede Globo por ocasião do primeiro Rock In Rio: preferem serem chamados de headbangers), mas há também os góticos, o pessoal dos anos cinqüenta, etc. Não estão presentes o pessoal da dance-music, hip-hop e eletrônicos: estes ocupam atualmente a Galeria Presidente, que fica na mesma rua 24 de Maio, a 50 metros do Edifício Grandes Galerias.

Este, conforme já foi publicado em revistas especializadas, abriga a maior concentração de CDs, em um único espaço, da América Latina. Astros do rock internacional, ao virem para S. Paulo em suas turnês, fazem questão de dar uma passadinha por lá, como por exemplo a  Chrissie Hynde do conjunto The Pretenders (já repararam que eu sou do tempo dos “conjuntos”, e não das “bandas”), a qual, dizem, gostou tanto do centro de SP que adquiriu um apartamento na avenida São Luís!

O aspecto decadente da Galeria melhorou muito depois que os lojistas se uniram, expulsaram a administração corrupta que havia lá e elegeram como síndico o Toninho (não o da Wop-Bop e sim outro Toninho, que não era do Rock; ele é proprietário de uma loja de material fotográfico). O Toninho consertou as escadas rolantes, acabou com os pontos de droga, colocou uma segurança eficiente, revalorizou alguns aspectos da arquitetura original (o que lhe valeu algumas inimizades, pois um certo dia, ou melhor, numa certa calada da noite ele arrancou os letreiros de praticamente um andar inteiro, para diminuir a poluição visual). Nas eleições para vereador o Toninho se candidatou, com esse nome mesmo: Toninho da Galeria do Rock, ou simplesmente Toninho da Galeria. Não deu para se eleger (apesar do meu voto entusiasmado), mas continuou firmão na administração da Galeria.

Eu já não ia tanto lá. Prefiria procurar LPs de vinil na feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, aos sábados. Quando ia ao Centro, às sextas-feiras, caçava vinis num velho prédio comercial da rua Sete de Abril (que pode ser motivo de uma crônica futura), e aí dava uma breve esticadinha na Baratos para dar um abraço no Luiz Afins e no Valdir Moon, e relembrar os tempos das nossas alegres cervejadas na Ayrosa, um bar tradicionalíssimo que estava no Largo Paissandu desde os anos 30 ou 40 e que infelizmente foi decaindo até fechar. Nunca mais houve happy-hours tão boas como aquelas da Ayrosa, que me perdoem os responsáveis pelo Bar Brahma, pelo Ponto Chic e pelo Salada Record (havia outro ponto que apreciávamos, que infelizmente também não existe mais: a Leiteria Americana, na rua Xavier de Toledo, cuja época remontava aos Modernistas da Semana de 1922).

Nunca mais encontrei o Grilo Falante. Soube que ele fez companhia ao Pedro AoxomoxoA e ao Luiz Afins quando estes, triunfalmente, dividiram um baseado com o Eric Burdon (do conjunto The Animals) no camarim deste último quando de seu show em Sampa, já nos anos 90! Pouco depois reencontrei o Maurício Watts, o qual não via há muitos anos. Encontramo-nos para buscar uns LPs raros e, nesse dia, era para o Grilo ir junto, mas na última hora ele não apareceu. Tudo bem, afinal o lema da loja dele era “Never Trust A Cricket” (“nunca confie num Grilo”).

Notas finais:

1) Dedico à memória de Roberto Kirsinger (o “Grilo Falante”); Mauricio Lhamas (o “Mauricio Watts”); e Ana Tereza C. Martins (a amiga que me encomendou a crônica).

2) Reencontrei o Grilo um tempo antes dele adoecer. Ele já tinha lido a crônica e me disse que adorou. Mas… “never trust a cricket…”

3) Alguém sabe me precisar quando foi que caíram em desuso as gírias “mauricinho” e “patricinha”?

NOTA ADICIONAL – sobre a ilustração que está no início desta postagem:

Trata-se de perspectiva integrante do anteprojeto para a construção do edifício Grandes Galerias, no início da década de 1960; projeto esse a cargo do escritório de arquitetura Siffredi & Bardelli. Conheci o casal Ermanno Siffredi e Maria Bardelli quando eu era recém formado e trabalhei alguns meses no estúdio do arquiteto Mario Bardelli, irmão da Maria; esta e o Ermanno visitavam o estúdio para supervisionar as perspectivas que o Mario estava desenvolvendo (com alguma ajuda minha) para promover um empreendimento residencial. Ou seja, conheci os autores do projeto da Galeria do Rock na mesma época em que começava a freqüentá-la – mas demorei alguns anos para saber dessa coincidência…

 

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