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Chernobyl

A guerra por dentro do sujeito: não nascemos para produzir sementes.

Um soldado volta louco da guerra, e não consegue ver a vida, senão através das cores, explosões e ruínas.

Chernobyl

 

Mamãe dizia que eu era um jovem popular, mas de muito pouco riso. Ela dizia,

Não é feliz, o sujeito que não ri”.  Esta era mamãe. 

Eu não via a nuance colorida da vida. Eu via um desenho único nas pessoas.  

Eu via os seus prismas, e deles retirava as cores mais influentes.

Em verdade, colhia as cores como fontes da energia que serviriam para as guerras.

A vida é o tempo presente. Não nascemos para produzir sementes.

Eu cresci, ouvindo o meu pai dizer: “Tu vais crescer e vais conhecer a guerra

Aquilo lá é um mundo de cores. Vermelho é vida. Amarelo é morte. Azul é sangue.

Verde é paixão. Branco e violeta são estados de espírito. Branco é medo. Violeta é ódio.

Marrom é irrisão.

Na guerra, tudo é verossímil. A vida. A morte. O sangue. A pressa de morrer.

O medo de viver…

Ninguém vive a vida por acreditar ou desacreditar em futuros.

Se há vida em nós, a guerra foi o meu grande processo de escolha.

Não sou efusivo, sou pouco amável, nada infernizo, mas pouca coisa vai tornar-me

um ser amigável. Se isto (hoje) lhe desaponta, nada eu terei a lhe oferecer.

Esta é a minha natureza.

Viestes comigo, dei-te o meu ombro, atravessamos geleiras e oceanos.

Não te enchi de beijos. O que pretendes de mim? 

Você dissimula, mas guardas as minhas belas palavras para enterros.

Trabalho com o instinto de proteção e de afeto.

Não entendo o porquê de dizeres que tudo mudou.

Engano seu.

Quem passar por Chernobyl e pôr os olhos em nós, o que verá, senão uma menina

sem esperança; atrás da menina, um passado meditativo; um sanfoneiro desempregado;

um velho corintiano louco; um capoeirista sem gingado e um pôster amarelado

do Francisco Cuoco…  

As pessoas no outdoor, vivem mais afastadas, porque não pensam em suas vaidades.

Elas estão sentadas na estação, porque foram abandonadas ali.

Elas não veem o trem passar e permanecerão sentadas, eternamente,

de costas para o futuro. Elas não entenderam o sentido da guerra.

Bem próximo ao trem grafitado, dá para ver as ruínas. Todas elas desabitadas.

Eu vejo moinhos sem cata-ventos… eles se perderam para dar passagem à bombas e misseis.

Isto, permanecerá inalterado entre nós.

Adiante, você pode ver um cavalo velho de patas quebradas; ao lado dele,

um velho soldado desencantado com as guerras. Aquele é o meu pai.

Este aqui sou eu, de olhos novos. Olhos fixos no passado.

O mundo moderno, eu olho e nada vejo

 

 

 

Carlos Kahê

 

*Imagem BBC

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