Inconclusos Online

O que é a felicidade?

Como alguém mais pode responder por nós?

Um conto de Carlos Kahê sobre inquietudes, incoerências e inconsciências da vida de um jovem.

Felício de Castro, aos quatorze anos de idade, fora dado como inapto para sacristão.
Desde então, ele se sentiu vencido e dominado por uma timidez crônica; infiel companheira dos seus fracassos. Aconselhado pela mãe, ele resolveu que faria Direito, porém não conseguindo aprovação na universidade pública, correu para inscrever-se em uma faculdade particular. Ali, foi onde o jovem Felício fez graduação e pós-graduação, em vacilos. Para desespero da mãe, o coração do filho perdeu-se de amores por uma delegada, justa professora de Penal.

 

Stela Castro foi à loucura com o filho: – De que maneira você vai apresentar sua namorada nos lugares? Gente, esta é a minha Mãe. Foi mal. É uma tia querida!… Acorda, Felício! Você não é Emannuel Macron!

 

Stela não via futuro na união de um jovem tapado e inexperiente, do tipo Felício, com uma mulher resolvida, econômica e sexualmente. Depois de formado, Felício, que ainda não se livrara da indelével marca da timidez e do comando e influência de terceiros, levado por um amigo, a pedido da família, ele foi advogar em Barro Preto, pequeno arrabalde, não tão distante da periferia de sua cidade.

 

Cumprido o exílio entre os rurais, Felício retorna à antiga casa e conhece o Gonçalves, que já batia ponto, empoleirado na cama de sua mãe. Gonçalves era um pulha que adorava cortejar mulheres que se diziam mal iniciadas: ele aproveitava a vulnerabilidade daquelas senhoras, para aplicar pequenos golpes, usando a boa lábia treinada, uma vez que se tornara imbatível plantador de muitas igrejas periféricas. Levado por este novo amigo e sócio, Felício foi conhecer Temístocles, que lhe ofereceu uma boa causa de aforamentos com terrenos invadidos no litoral de Camamu, Campinho e Barra Grande, além da autorização para namorar a filha Justina.

 

Sentindo-se próspero e consolidado na profissão, Felício desposa a filha de Temístocles, apesar de considerá-la tímida, caseira e sem brilho. Se Machado de Assis a conhecesse, diria que Justina poderia não ter a alma negra de MacBeth, nem a alma vermelha de Cleópatra; certamente, não a enquadraria como insossa e de alma cinza, como queria o Dr. Felício Castro. A própria Stela Castro disse que a menina carregava uma boa alma. Talvez, azul, igual à alma de Julieta.

 

Para Felício, a alma da esposa era cinza e com perfeita sintonia entre as almas das pessoas sem virtude. Dito isso, ele não abriria mais questão sobre o assunto. O casal teve um filho que, para a tristeza do causídico, nasceu morto, e este fato deixou a sua arca à deriva, dançando desnorteada, em plena baía de Camamu. Após o parto, Rufina morre e passa a ocupar o vazio do marido com as qualidades que ele não enxergara em vida. Ao inventariar as quinquilharias da falecida, Felício descobre que ela o traía com o Gonçalves. Não aceitando aquela traição, ele impregna-se de ódio ao sócio e resolve romper, unilateralmente, a sociedade.

 

Na tarde em que tomara tal decisão, Felício correu as mãos pelo corpo; dos ombros aos joelhos, como a livrar-se de uma praga, uma mancha deletéria, uma sombra inconveniente. A partir de então, ele decretou que o passado ficaria no passado e o incluiria nos arquivos que seriam levados à queima. Temístocles tentou dizer que eliminar o Gonçalves sem uma comunicação formal, firmada em cartório, equivaleria a enterrar flores numa cova e cobri-las com o defunto. Felício não quis dar ouvidos ao ex-sogro, com quem também já cortara os laços, por acreditá-lo alcoviteiro.

 

Meses depois, retomando os trabalhos,  Felício vê caminhar pela sua calçada, um homem metido em um terno, que a princípio lhe pareceu impecável; o chiado das botinas, no entanto, roubaram o encanto e a paciência daquele advogado em recesso, e o desconcentrou. Sem aferir a autoria e a autoridade de quem conduzia aquele incômodo aos seus ouvidos, Felício considerou ultrajante, o modo daquele estranho pisar em sua tarde, agredindo-o com chiados repugnantes, e resolveu não mais outorgar-lhe a impecabilidade da vestimenta; pelo contrário, avaliou a felicidade daquele homem, hipotecada a possíveis bolsos vazios, o estômago limpo e a carteira necessitada de alguns.

 

Ele ainda não o distinguira, mas se tratava do Gonçalves que viera cobrar-lhe princípios de lealdade. – O nosso negócio não contempla fidelidade. Pelo que eu saiba, o que firmamos foi um contrato de lealdade. Palavras de um Gonçalves desleal, que acabara de arrancar das suas antigas gavetas, o que nelas havia guardado de hipocrisia e de cinismo. – É preto no branco, e não tem mais conversa, meu caro!

 

Estavam frente a frente, dois homens com históricos de vida em desacordo.

 

– Por que se preocupar com pequenos problemas sociais ou morais, meu caro Felício, se os problemas da modernidade são mais urgentes? A modernidade é veloz. As guerras estão aí! Estão aí a miséria, as transformações e as conquistas de gerações. O mundo é bem maior do que as suas limitações querem impor a ti mesmo. Se a sua mulher morreu, a mim me compete retirar o nome dela das minhas visitas ocasionais. Isso está dito e feito. Sua mãe não foi aaprovada. Sinto lhe informar. É osso desfeito.

 

O homem que sempre tivera a face esbofeteada pelo destino deveria vomitar na cara do sócio o riso da fortuna e da ironia bem administradas, mas se meteu no capote da timidez e do embaraço. Felício estava atônito, e sem saber o que dizer aos jurados, agora que despachava (pessoalmente) com a imoralidade. – Ah! Não sabes o que dizer? Pois eu lhe digo: o senhor está misturando pedras com farinha. Não vejo por que renunciar aos meus direitos, apenas para compensar a sua iinaptidãopara com as mulheres. Abra a carteira e volte ao trabalho, que eu tenho outras visitas esta tarde.

 

Felício que já se impregnara de passados, trouxe a pragmaticidade de sua mãe ao pensamento, quando ela o obrigou a trocar uma relação sólida com a delegada, e o entregou nas mãos desajustadas e sonsas de  Justina. “Grande visão de mundo, ela tinha. Não atacou o rei, se ajeitou com o bispo, agora é pedra comida. Marafona infeliz!”

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