Pular para o conteรบdo principal

Inconclusos Online

Captura-de-tela-2026-09-20-221252

๐€ ๐๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š ๐๐š ๐ฆ๐ข๐ฌ๐ฌ๐š

(ensaios pro novo livro)

Entre missas, diรกrios e desejos, Clara descobre que dentro de cada rotina vivem muitas versรตes โ€” e um encontro inesperado revela coragem, desejo e liberdade.

๐€ ๐๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š ๐๐š ๐ฆ๐ข๐ฌ๐ฌ๐š
(ensaios pro novo livro)

โ€œDespudorada…โ€
Bem, ao menos era o que diziam as vozes da sua cabeรงa, enquanto ela deixava a รกgua quente escorrer pela pele, no fim da madrugada daquele domingo (igualmente quente).
Clara sorria, lavava os cabelos e danรงava ao som da voz que continuava dizendo:
โ€œDeliciosamente despudoradaโ€
O relรณgio jรก marcava 3h06, iniciando a segunda-feira…

ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย  ย *
Horas antes, o domingo corria comum, quando estava sem as filhas: almoรงo com as amigas, passeio com o cachorro, um filminho ร  tarde, alรฉm da missa das 18h30.
Sim, Clara era de missa.
๐ƒ๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š ๐ž ๐๐š ๐ฆ๐ข๐ฌ๐ฌ๐š. ๐๐จ๐๐ž?
Creio que sim.
๐‚๐ฅ๐š๐ซ๐จ ๐ช๐ฎ๐ž ๐ฌ๐ข๐ฆ!
Clara era contadora, sabe? Planilhas, nรบmeros, relatรณrios โ€” tudo em ordem, tudo sob controle. Mรฃe de duas meninas, filha รบnica de pais jรก velhinhos, vivia entre as demandas da maternidade, do trabalho, da casa, dos cuidados com os pais, algum tempo para si (pouco, na verdade) mas era feliz. Bem feliz.
Mas, ร  noite, quando a casa se aquietava, abria seu diรกrio e escrevia. Escrevia sobre suas muitas versรตes: a doce, a maluca, a disciplinada, a protetora, a da missa e… a despudorada.
๐ƒ๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š? ๐…๐จ๐ซ๐ญ๐ž ๐๐ž๐ฆ๐š๐ข๐ฌ.
๐€๐ฌ๐ฌ๐š๐ง๐ก๐š๐๐ข๐ง๐ก๐š, ๐ญ๐š๐ฅ๐ฏ๐ž๐ณ.
Seu lado B.
E todas as versรตes conviviam muito bem, obrigada.
Todas vivas.
Bem vivas, na verdade.
Mas foi no elevador do prรฉdio novo que essa histรณria toda comeรงou, mais precisamente, quando Clara conheceu Miguel, um publicitรกrio, pai de dois rapazes e dono de um cachorro mal-humorado (fofo, mas mal-humorado โ€” nรฃo que o dela tambรฉm nรฃo fosse, e os dois viviam se estranhando pelos corredores…). Mas onde essa histรณria estava mesmo?
Ah, sim… sabe, a princรญpio, Clara nรฃo havia notado nada que chamasse sua atenรงรฃo em Miguel, talvez uma intuiรงรฃo leve, uma sensaรงรฃo ainda sem nome, mas que ia deixando rastros…
ร‰ que, entre levar crianรงas ao colรฉgio, voltar do trabalho e subir com as compras do supermercado, os poucos encontros no elevador foram dando algumas pistas:
โ€œTrabalha com o quรช?โ€,
โ€œOnde suas crianรงas estudam?โ€
โ€œTรก gostando de morar aqui?โ€
Aaaaah, essas coisas que vรฃo mexendo com a cabeรงa (e os pensamentos) da gente.
Atรฉ que um dia Clara recebeu uma mensagem de Miguel, numa rede social.
Despudorada, da missa e desatenta, ela nรฃo teria visto nรฃo fossem os โ€œdeuses dos hormรดniosโ€ dizerem baixinho:
Dรก uma olhada nisso aรญ, menina.
E ela olhou.
A mensagem?
โ€œร‰ uma pena que nossos cachorros nรฃo se deem bem…โ€
E ela sorriu. Sorriu aquele riso de menina que andava guardado havia algum tempo. Sorriu a vida adulta que a gente deixa de lado quando percebe quanta vida ainda nos habita…
E ela respondeu.
E eles seguiram se respondendo.
Perguntando, rindo, respondendo e… uma faรญsca crescendo.
Mas foi num domingo qualquer, depois do cinema dele e da missa dela, que Clara recebeu a mensagem, que, resumidamente dizia:
โ€œComprei vinho. Aceita uma taรงa?โ€
E ela hesitou. Estava de pijama. Um pijama pouco santo, pensou Clara da missa, rindo de si mesma. Mas lembrou das muitas coragens que vinha colecionando: mudar de casa, de bairro, de postura, de cabelo, de estado civil…
E resolveu responder. Se enrolou em seu roupรฃozinho santo e cor-de-rosa e respondeu:
โ€” Quer subir com o vinho?
E Miguel subiu, trazendo o vinho, o frio na barriga e… o inesperado. E, quando a porta se abriu, abriu-se tambรฉm uma versรฃo de Clara que ela estava aprendendo a reconhecer.
Eles atรฉ tentaram conversar: a decoraรงรฃo da casa, o tamanho da mesa, mas havia ali uma tensรฃo, uma urgรชncia que os impediu de abrir o vinho…
E o beijo veio rรกpido, intenso, sem perguntas.
๐ƒ๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š.
๐‚๐จ๐ฆ๐จ ๐š๐ฌ๐ฌ๐ข๐ฆ, ๐‚๐ฅ๐š๐ซ๐š ๐๐š ๐Œ๐ข๐ฌ๐ฌ๐š?
๐ƒ๐ž๐ฅ๐ข๐œ๐ข๐จ๐ฌ๐š๐ฆ๐ž๐ง๐ญ๐ž ๐๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š.
E entรฃo, um turbilhรฃo de sensaรงรตes invadiu nรฃo sรณ o corpo, mas tambรฉm a mente de Clara.
Um perfume diferente, um novo tom de voz na madrugada; na intimidade de um quarto que, atรฉ entรฃo, sรณ conhecia sua prรณpria voz e seus pensamentos.
E Clara se descobriu livre, entregue, e inteira (de novo) em sua prรณpria pele.
Talvez fosse o beijo rรกpido e intenso que ainda ecoava, ou o roupรฃozinho santo, caรญdo ao chรฃo, coisas que pareciam anunciar que certas roupas โ€” e certezas โ€” nรฃo foram feitas para durar muito tempo.
๐ƒ๐ž๐ฌ๐ฉ๐ฎ๐๐จ๐ซ๐š๐๐š.
E ali, entre o silรชncio cรบmplice e o arrepio de um beijo na nuca, Clara percebeu que estava danรงando com a ousadia. E gostou disso…
Nรฃo era sobre pressa, nem sobre excesso.
Era sobre permitir-se.
Sobre ouvir aquela intuiรงรฃo que sussurra baixinho:
โ€œ๐€๐ ๐จ๐ซ๐š ๐žฬ ๐š ๐ฌ๐ฎ๐š ๐ฏ๐ž๐ณ…โ€

Ensaios para o prรณximo livro…

@voaletra

Curtir
Compartilhar

O texto e opiniรฃo do autor nรฃo refletem necessariamente a opiniรฃo do site Inconclusos Online.

Deixe um comentรกrio