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A-inutilidade-do-relogio

A inutilidade do relógio

Melhor ficar na cama

O sujeito acorda enlouquecido com a rotina, e percebe a inutilidade do trabalho. Pra quê, para tornar-se alvo de ladrões? Gastar sapatos, enfrentar engarrafamentos, bater ponto pra quê, se estou bem na minha cama?

A inutilidade do relógio

Eu nunca acordo bem.
Estou sempre em desacordo
com a funcionalidade do relógio.

Para mim, a vida dorme parada
ao lado da minha cama.

Em meu caminho de lama chove
desde a madrugada.

O trânsito na via expressa não prossegue.
Não vou acordar para envolver-me
com más empreitadas.

Onde vou, vai comigo esse ar matinal
carregado,
atraindo balas em minhas linhas de fronteira.

Não duvide.

Meu ser é uma caixa de vidros
à mercê de balas certeiras.

O relógio do tempo causa-me avarias,
recita cruz-credo… pai nosso, ladainhas,

Jesus, aves marinhas…

O rádio informa que a estrada foi aberta.

Para quê?

As marmitas de plantão, desde ontem, esperam.
A notícia se perdeu há muitos dias…

O trânsito invade a minha cama.
O relógio é só um dispositivo criado
para desorientar.

Relógios apontam sem direção.

Por que devo me levantar?

Na rotina de trabalhos, o pobre continuará
sem sapatos.

Mortes movimentarão plataformas
e o maluco pode até ostentar um relógio.
Ele jamais vai pleitear proteção.

As pernas do mundo estão cansadas
de dar pernadas.

Por que vou acordar?
Tudo é absolutamente em vão.

A angústia matinal revolve carvão e cinzas
na cara do homem vazio.

Tardes vazias.
Promessas de emprego sem emprego
são balões fumegando alegorias de insatisfação.

Jornada longa não é futuro para homem nenhum.
É sua perdição.

O sujeito empregado passa a ser estatística
no crime.

As circunstâncias são a fome
e o pecúlio pró-ladrão.

É duro trabalhar duro
e ser roubado por outro pobre,

já que o rico nos impinge a escravidão.

O Universo é o submundo místico
que me foge à compreensão.

Foge ao senso exato,
entregar-me à amolação medonha da polícia.

A polícia nunca soube, de fato,
o que é mito
e o que é fato!

Para que deixar a cama?
Não continuarei vivo por muito tempo.
Breve serei adubo de flores…
comida de tatu?!

Não me iludo com clamores.

Mataram o noivo em plena igreja.
Incendiaram o vestido da noiva no altar!

Mais um sonho bordado pelas chamas.

Se esquecessem o altar
e optassem pela cama,
tudo estaria no organograma!

Eis aonde quero chegar.

A fugacidade descosturou-se na igreja.

O caos foi decretado.
O jeito é providenciar a devolução
do esquema do tudo alugado.

Amarga ilusão de ofício.

A mulher abandonou a faxina.

Casamento, para ela, nunca mais.
Acabou o sonho.

Tem fogo escondido no rabo do noivo.

Ela vai ficar traumatizada,
passará a carregar outro andor.

O doce ficou agarrado aos seus dentes.
As armadilhas, presas às nossas mentes.

Do banquete bom, o que ela provou?

A banalização da vida alastrou-se.

No Brasil esplêndido, de viadutos e labirintos
sem janelas, mortos fazem procissão na cancela!

Eu penso na menina dormindo
sob as alças do Gasômetro.

O riso ausente, o Rio ausente.
Sentinela vazia.

Ela, tão morta…

A flor inocente desceu a corrente
com as águas sujas do mangue.

Sua ilusão viveu pendurada,
atrás da porta.

Com o tempo mal-arbitrado,
a milícia atuou com disfarces.

A polícia reformada, com ousadia.

Nessa impetuosidade carnavalesca de ressentidos,
resta-nos saber:
onde o fascismo escondeu suas avarias?

Nesse país de fomes e de igrejas sem deus,
eu vejo crescer a fila de ateus.

Meto o galho dentro.

Recolho-me em minhas ilusões abissais.

A menina morreu num impacto de bala!

Sangue negro sem vida,
plena aurora de mangue,
corpo exangue, aberto
aos carreirões de formiga.

Mais uma madrugada chuvosa…
Essa rotina perigosa.

Eu nunca tive pressa de acordar.

Sempre o relógio a relativizar o tempo.

O que é o futuro, senão a persistente inutilidade
de um tic-tac nervoso
a desmistificar a funcionalidade de tudo?!

Tristes trópicos.

O defunto poupará seus calcanhares.
Ele não vai mais andar.

A família fará economia
de um par de sapatos.

Tristes trópicos.

A viúva deixará a faxina de uma vida
para faxinar no asfalto.

Vai abrir mão do que nunca lhe pertenceu.

Isso só define o sonhador sem horizontes.

Horizontes são delírios visuais.
São colisões de fronteiras, sem impacto.

Um pássaro prudente não voa além do curral.

O homem é um pássaro.
A morte é o seu voo cerebral.

Peguei a marmita.

Cometi a loucura de apertar contra mim
a honra dos laços dos meus velhos sapatos.

Cumpri o velho itinerário.
Bati ponto.

Não percebi um gesto sequer de afeto.

Minha cara amarrada
é o pior quadro da parede.

Confesso, sou um inseto de concreto.

Não posso cobrar apreço de ninguém.

CK

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O texto e opinião do autor não refletem necessariamente a opinião do site Inconclusos Online.

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