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Afinal, o que é o tempo?

Reconstruir uma xícara que se espatifou no chão para deixá-la como era em seu estado inicial seria equivalente a voltar ao passado.

O tempo é a quarta dimensão do universo, unidirecional e relativo, conforme Einstein. Embora a física impossibilite voltar ao passado, teoricamente permite viajar ao futuro por alta velocidade

É inevitável. De vez em quando, surge nas redes sociais alguém com dúvidas sobre o que seria exatamente o tempo. Invariavelmente, aparece um comentário de viés anticientífico, no qual opiniões infundadas pesam mais do que todo o conhecimento acumulado pela humanidade.

O tempo é uma dimensão fundamental que usamos para ordenar e medir eventos e mudanças no universo. Na verdade, é a quarta dimensão que se junta às outras três espaciais: largura, comprimento e profundidade. Trata-se de uma parte essencial da nossa experiência cotidiana e da compreensão do mundo, embora ainda não seja totalmente compreendido.

Na física, ele é considerado uma dimensão contínua e unidirecional, representada no espaço-tempo como uma seta que aponta exclusivamente para o futuro. É impensável imaginarmos um relógio cujos ponteiros se deslocam no sentido anti-horário.

O tempo é parte integrante da teoria da relatividade restrita de Einstein. Segundo o físico alemão, ele pode ser afetado pela velocidade e pela gravidade, o que gera fenômenos como a dilatação temporal: o tempo passa mais devagar em regiões de forte gravidade ou em velocidades próximas à da luz. Quem assistiu ao filme Interestelar, por exemplo, viu como o protagonista, ao passar próximo ao horizonte de eventos de um buraco negro, quase não envelheceu, enquanto sua filha na Terra tornou-se idosa.

Além da relatividade de Einstein, o tempo também pode ser visto como relativo do ponto de vista emocional. Quando aguardamos ansiosamente pela pessoa amada, os minutos se arrastam longamente. Por outro lado, quando estamos na companhia dela, as horas agradáveis parecem se esvair em instantes.

A natureza exata do tempo é um tópico complexo e desafiador, debatido pela filosofia há séculos. Há discussões sobre se ele é uma entidade real e objetiva ou apenas uma construção subjetiva da mente humana. O filósofo Santo Agostinho escreveu que o passado não existe porque já aconteceu, o futuro não existe porque ainda não ocorreu, e o presente também não existe, pois, no exato instante em que o vivemos, ele já virou passado. Na física quântica, há perspectivas que sugerem que o tempo pode ser emergente de outras propriedades fundamentais do universo, como a mecânica quântica e a teoria dos campos.

 
A impossibilidade de viajar ao passado fundamenta-se principalmente na Segunda Lei da Termodinâmica — ligada à entropia — e na teoria da relatividade. A termodinâmica estabelece que a entropia de um sistema isolado tende a aumentar com o tempo. No início do Universo, a entropia era zero e vem crescendo desde então, o que está diretamente associado à seta do tempo. O exemplo clássico é o de uma xícara recém-fabricada, que possui baixa entropia e vai se desgastando com o passar do tempo. Se ela cair e se partir em mil pedaços, reconstruí-la perfeitamente equivaleria a voltar ao passado.

 
A teoria da relatividade é outro pilar que torna a viagem ao passado improvável. Ela estabelece que a velocidade da luz é uma constante insubstituível e que nada pode superá-la. Além disso, os eventos no espaço-tempo obedecem a uma estrutura causal estrita, na qual a causa sempre precede o efeito.

Há quem argumente que, ao atravessarmos um buraco de minhoca — um atalho teórico que dobra o tecido do espaço-tempo para conectar grandes distâncias —, poderíamos alcançar uma estrela distante, situada a um bilhão de anos-luz. Como a luz dela levou um bilhão de anos para chegar até nós, o que vemos no céu noturno é a estrela como ela existia no passado, e que talvez nem exista mais. No entanto, se conseguirmos viajar até lá, será que retornaríamos ao passado daquela estrela? Não, pois nos deslocamos fisicamente pelo espaço; portanto, chegaremos lá no tempo presente dela e no nosso. Isso difere completamente de voltar no tempo sem nos deslocarmos pelo espaço.

Por outro lado, segundo o entendimento atual da física, a viagem ao futuro é considerada teoricamente possível. Como o tempo é relativo à velocidade do observador, ele passa mais devagar para quem se move rapidamente em relação a um referencial em repouso. É o famoso “paradoxo dos gêmeos”: se um deles viajar em uma nave a uma velocidade próxima à da luz e depois retornar à Terra, terá envelhecido menos que o irmão que permaneceu. Do ponto de vista do viajante, ele deu um “salto” para o futuro.

Contudo, essa modalidade de viagem ao futuro restringe-se a efeitos relativísticos extremos e não permite retornar para alterar eventos passados. Atualmente, a humanidade não dispõe de tecnologia para alcançar as velocidades necessárias de forma prática e controlada, embora, em tese, nenhuma lei fundamental da física impeça o processo.

Vale ressaltar que a relatividade ainda não foi unificada com a mecânica quântica, e os fenômenos extremos próximos a buracos negros continuam no campo da especulação teórica e da intensa pesquisa científica. Além disso, atravessar um horizonte de eventos é um empreendimento altamente perigoso e totalmente inviável para a nossa tecnologia atual.

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