O negócio não compensa.
Não mata a sede.
Eu olho e não vejo nada.
Me pergunto como eu trafeguei no meio de tanta superfície.
Agora, eu não tenho condição de desfilar na beira da lagoa, pra plateia me ver passar.
-Gente: a palavra gente: vamos dissecá-la.
Eu intuo cidades como entidades. Todas funcionam com suas manadas. Mano, eu tenho um prazer tão grande de estar no contra-fluxo.
Eu não posso explicar.
Eu faço tanta questão de não agradar.
É tão essencial hoje, para mim, ouvir e não escutar, olhar e não ver, ir e não estar. Estar no meio e ser impermeável.
Deixar as pessoas se mostrarem, amostras grátis, mas, começo então, a me cansar. Os jogos são tão banais. O que muda são os personagens, o roteiro é igual.
Os anos passam e a peça de teatro é a mesma.
Acontece que os personagens estão envelhecendo e é constrangedor ver seres humanos se debatendo sem recursos, contra si mesmos e em desfavor do tempo, que não sabem aproveitar.
Como eu sei?
Eu sinto. A energia está no ar.
A vida é generosa. Nos é permitido encenar por décadas.
O silêncio é o que não se pode suportar, em negação.
Pensar na coletividade, nessa insanidade a céu aberto, que não cessa, é onde eu estou atenta para não adoecer mentalmente.
Não naturalizo jamais o que tenho presenciado no coletivo, na humanidade.
Há um surto de falta de autenticidade, onde sem se saber quem é, o homem quer alguma coisa, chegar em algum lugar, conseguir aproveitar algo, usar alguém, alguma recompensa.
Nenhuma investigação para dentro, isso não, Deus me livre. Mudar é proibido. O game é estar na zona de conforto e usufruir.
E o tempo, voando, escorrendo pelos dedos.
À margem de qualquer nível sutil de consciência, vão vivendo, como se fossem imortais.
Que bom que certos fenômenos nos são invisíveis. Em primeira instância
se víssemos…
Agora penso na ‘volta’ que a Terra tem de dar, pra sustentar esse peso em gravidade. Se botarmos na balança, quanto pesará um cadinho de almas?
De onde viemos?
Por que estamos gastando o tempo assim, em manadas?
Por que têm-se tanto medo de investigar mais fundo?
Se o fundo é dentro, cada vez mais fundo, até a alma, o self, o instinto e o espírito se desconectarem.
E segue a manada. E a Terra continua azul. É muito milagre para um planeta só.
É muita benção. Há uma Energia infinitamente generosa que sustenta o game, sem reclamar.
Há de ser tudo para que se tenha olhos de ver, almas para serem tocadas, vidas significantes, espíritos redimidos, mentes sãs, capazes de reconhecerem-se em outras. A gravidade do chão deveria conectar o mistério de se estar aqui.
O lance é sério, a vida é real, o jogo é inútil e a conta chega.
Em forma de silêncio insustentável e paz insignificante.
É mentira.
Deixa ser.
Vai.
Enfrenta.
Passa da linha de chegada.
Continua.
Investiga.
Acessa.
Dá tempo. Ainda.
Se pelo menos então, nos dissolvêssemos em pó de estrelas, que é o que somos, eu poderia chamar o céu recheado de pontos luminosos, de manada estelar.
H.C.
08-08-26
00:18h 🌻🦅