Água-viva
A barca
E de lá vem ela, assim, absorvendo, absolvida de sua própria inquisição. E tem um cheiro de fruta rara no céu da boca, por ela ter aberto as portas do inferno.
Pois ela aprendeu a escrever, e apenas ser. Gosta de compartilhar. É tanta coisa que se acumula com o tempo, ela sabe, gosta demais da solitude, mas compartilhar, hum, tem um quê de especial. E tem um en-Canto. Ela não sabe quem ela é, e acha graça quando tentam descobrir isso por ela.
Ela vai, saltita daqui, cheira dali, cavuca de lá, tateia e testa…bate a testa…e não se cansa de se descobrir. Está aprendendo tanto. Cada contato, um cheirinho novo no ar. E tudo quer revirar, virar palavra.
Esse tanto de selvagem dela, é inerente.
De alguém que sabe que não sabe, é perigoso chegar muito perto. Corre-se o risco de se acomodar.
A vaidade nela, tentam dissecar em morno cozimento.
Mas aí é que está.
Não é vaidade. Ela começa a sentir o peso de sua autenticidade.
E vale o quanto pesa.
Às vezes, o mundo parece-lhe deslocar.
Deslocado. Mas ela não é corpo.
Continua a cavucar.
As unhas estão cheias de terra e o cheiro melhora.
Ela considera fractais, assim como considera a honestidade de um homem diante do espelho.
Homem, mulher, tudo uma coisa só…e cavuca.
Ela pensa em como é bom ter um pai.
Ela sabe que vai encontrar além do que busca, e que está em seu mérito.
Sua liberdade.
A leveza de conseguir ser só, e por hora, gostar.
Gastar-Tempo e cuidado consigo mesma. Pois por ser ela, pode o mundo abarcar…a barca.
As palavras lhe rodeiam e sabem curar.
A barca é sim, azul. Sempre em um tom diferente do mesmo mar.
Ela acha tão estranho certos animaizinhos de estimação que, vivendo com seus tutores, são proibidos de latir…é isso existe.
Há algo de muito provocativo quando escreve, pois não há quem leia suas palavras e capte a ideia original, pois no momento mesmo em que saem as palavras, estas já careceram de algum significado e voaram, livres como borboletas.
A palavra retorna à ideia lúdica, que ultrapassa sua etimologia e vai além da responsabilidade de ter de significar.
A palavra mesma absorve o ato que a precede.
E antes de ela, a palavra, ter de se defender, desaparece em imagens sem nenhuma retórica ou indignação.
Elas, as palavras, voam longe e vão dar na barca azul.
Ali não há mais acesso.
Ela, antes de perder de vista as palavras, perdeu a si mesma.
Como poderia alguém alcançá-la e pra quê?
Ela se perde para preservar a barca!
Se souberem uivar com cuidado e constância, diz a lenda que ela escuta…e vem.
Mas vem de noite, em lua minguante e discreta.
Tateia e cavuca.
Um ou dois disseram que a viram.
E no ato não havia nada separado.
Era tudo uma coisa só.
As palavras indigestas eram vistas de dentro da barca, como inofensivas, porém sempre-vivas.
Mas como o mar balançava,
ela dançava com as palavras, depois da meia-noite.
Então duendes vinham festejar.
Os homens e as mulheres, agora seres, apenas, estavam alheios de todos os pretextos e dos pré-textos também.
A dança era suave e havia um cheiro de alecrim e mar.
Ela descansava. Havia tateado muito. Sua aura, ela havia deixado ver.
Sendo como nunca houvera sido, feliz estava.
Pois, voltando do mar, na barca…azul…as unhas cheinhas de terra…desnuda de palavras, por fim…as admirava a nadar, palavras nadadeiras e que haviam perdido todo e qualquer signo.
As palavras não davam conta mais, do silêncio imperativo que a impregnava de consciência, o fato de ser quem ela é. Bastava. Ela considera belíssima sua armadura de palavras. A respeita e espreita.
Há quem a considere mística. Uns a veem como água-viva.
Ela, porém, apenas se vê nua.
E sempre viva.
23:40h
01-08-26
H.C. 🌻🦅