01-03-21
Eu não tenho o dom da palavra. De verdade. Podem buscar aqui palavras rebuscadas. Não há.
Em nenhuma língua. Pois que às vezes elas vêm, daí eu tenho de parar o fluxo e ir
buscá-las no dicionário. Somente às vezes lhes deixo ficar.
O verbo “lidar” me trava o sistema nervoso central. Vou conjugar e esconjuro. Me
faz confundir com a situação da lida, da labuta. E às vezes não sei lidar com este verbo.
É me tão desafiador escrever na língua portuguesa. É belíssima demais. Eu sinto
que temos um certo ranço com os portugueses ali do “nosso” Porto. Eu não quero ter.
Eu para ter birra, preciso conhecer. Mas digo de passagem: que riqueza essa língua portuguesa.
Que miragem as imagens. Já o dicionário me cansa. Retira do contexto toda poesia,
deixando só o que é concreto. Então penso: que valor tem a palavra sem memória?
O afeto sem carícia? A criança sem pai? O prato sem comida?
O rio sem o mar?
O mar sem água limpa?
Um país sem a palavra?
Eu escrevo.
Eu só escrevo. Escravatura. Escravidão. Escrava-tua. Minha não. Eu só escrevo.
Ex-crava-tua. Minha não. Sou livre. Meu peito é de aço. Açoite. De novo. Ninguém
viu. Mas ouviu. Mas houve esses dias ali.
Ex- crava tua. No peito o açoite.
De dia de noite. Ao menos o peito é de ferro. Aguenta o coice. Nem a literatura dá conta da
odisseia portuguesa devassando minha memória ineficaz e injusta.
Matriz africana. Minha sim. Sua também.
Meretriz não.
Só pele preta. Eu só escrevo. Nunca sei de nada. Observo.
De observar, não se vive. Eu escrevo.
Me redimo dos descréditos dos portos. Se ali desembarcaram mercadorias pretas,
eu só escrevo.
Conhecer a língua portuguesa supõe grande responsabilidade. Corre-se o risco de
se dar de cara com a história.
Eu no máximo canto histórias, normalmente só, eu só; escrevo.
H.C.🌻
Respostas de 2
Caneta afiada Helen Calaça! Adorei o texto!
Muito obrigada. Estamos conectados. 🌻