Eu tenho ciência de que sou categoricamente diferente desde os 13 anos de idade. Me sentindo uma alienígena desde sempre e tentando encontrar uma resposta, graças a Deusa Internet me deparei com o autismo – na época “Síndrome de Asperger” – quando tinha 27 anos. Nada conversou comigo tanto quanto o autismo.
Enquanto buscava um diagnóstico, recebi alguns rótulos: ansiedade social, transtorno bipolar II, transtorno de personalidade evitante e, finalmente, Transtorno de Espectro Autista, quando completei 41 anos. A ciência precisou evoluir e seus profissionais se atualizarem para eu obter um diagnóstico consistente. Hoje, a única coisa de que tenho certeza é: a maneira como vivencio a vida não é a mesma que a maioria das pessoas.
Isso porque, recentemente, tive a oportunidade de encontrar um grupo de pessoas no espectro. Entre elas, senti que não pertencia. Me senti sufocada pelo barulho, pensando em como sair daquela situação, desejando que minha alma pudesse escapar do meu corpo e fugir pelo ar. A sensação não foi diferente de como me sinto em meio a qualquer grupo de pessoas – especialmente quando tem muito barulho.
Entre pessoas “normais”, sou esquisita. Entre pessoas “esquisitas” (risos), sou ainda mais estranha por parecer normal.
Enquanto voltava para casa – 45 minutos de estrada sem contar as saídas erradas que peguei, o que sempre acontece quando dirijo numa rota que não conheço (com GPS) – me encontrei mais uma vez questionando o que sou eu, de fato.
O doutor que me diagnosticou disse algo marcante: muitas pessoas se sentem diferentes nesse mundo e, em algum momento, questionam se podem ser autistas. Mas a maioria delas não visita quatro consultórios médicos dizendo “acho que sou autista”. Isso foi reconfortante.
Mas o que ficou claro para mim no caminho de casa foi: a maneira como vivencio a vida não é diferente de como autistas vivenciam. Meu cérebro se encaixa no perfil. Meus pensamentos, meu desconforto, a forma como eu sinto que funciono… Tudo grita “autismo”. Mas a forma como eu respondo a essa experiência ainda é diferente da maioria dos autistas.
Existe um sério (e triste) debate dentro da comunidade autista entre pais de crianças com autismo severo e adultos autistas quanto a estes dois grupos pertencerem ou não à mesma categoria. A maioria dos adultos autistas defende que os grupos são o mesmo, pois a experiência é a mesma. A maioria dos pais de crianças com autismo severo acredita que deveriam ser transtornos diferentes, pois os desafios são diferentes.
A minha perspectiva pessoal é que a experiência é a mesma; a reação a tal experiência, no entanto, é diferente.
E então, eu mais uma vez me vejo numa narrativa heteropata. Vivencio o mundo de forma diferente. Reajo ao mundo de forma diferente. Não sou neurotípica, nem autista. Não sou normal, nem igual ao diferente.
Sou categoricamente e neurologicamente atípica. E a ciência ainda não tem um nome para isso.
Já passou da hora de criarmos um.
Marina de Cássia