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Date na padaria…

Reflexões sobre pressa, beleza e o sagrado da vida cotidiana em um café consigo mesmo

Na padaria, entre cafés e olhares, nasce um encontro consigo mesmo: pequenas cenas cotidianas que revelam beleza, emoção e inspiração.

𝐃𝐚𝐭𝐞 𝐧𝐚 𝐩𝐚𝐝𝐚𝐫𝐢𝐚

Faz um tempo — muito tempo — desenvolvi o delicioso hábito de me convidar pra um café. Apaixonada por padarias, encontrei nesses lugares um cantinho quieto, ali, dentro de mim mesma, pra observar o sagrado que acontece na vida cotidiana.

Ao som da máquina que coa o café expresso — forte, encorpado — atribuí a pressa do dia que corre exigente; a pressa que exigem da gente; ou a pressa que a gente se impõe porque, afinal, parece ser bastante elegante estar sempre com pressa. 🤦🏻‍♀️
— Bom dia, moça! Tá sozinha? — pergunta Vera, atendente sorridente aqui da padaria, enquanto coloca o jogo americano na mesa.
— Bom dia, Vera! Tô comigo mesma. É um encontro, sabe? Tô bonita?
Rimos. Ela ri mais ainda e diz:
— Ah, moça. Queria aprender a fazer isso. E sim, você tá muito bonita pro seu encontro! ❤️

Continuei sorrindo ao observar Vera indo buscar meu café. Agora, me concentro em observar famílias comendo seus pães na chapa; crianças brigando pelo Toddynho, enquanto mães insistem:
— Pede um suco de laranja! Vida…

Resolvo colocar meus óculos — novos, multifocais — que têm salvado essa escritora quarentona míope, mas vaidosa o suficiente pra achar que não precisa deles. É que resolvo tentar ler o que tá escrito no pescoço do atendente que conversa com um cliente. Não consigo e chego mais perto:
“𝐋𝐢𝐯𝐫𝐚𝐢-𝐦𝐞 𝐝𝐞 𝐭𝐨𝐝𝐨 𝐦𝐚𝐥, 𝐚𝐦𝐞́𝐦.” Consegui! E penso que tá funcionando — afinal, ele sorri, conversa e parece feliz mesmo na imensa agitação da padaria…

Agora, resolvo tirar os olhos do pescoço do atendente: não quero que ele pense que sou uma vampira. Me concentro em procurar olhares, assim, pra que se cruzem com os meus. Não encontro. Ao menos, hoje. Mas já aconteceu antes. E foi lindo…

E aqui, no meu encontro apaixonado, imagino as vidas das pessoas que me cercam: seus pensamentos, angústias, amores, saudades — e tudo isso me emociona. Me preenche.
Seriam os escritores, emocionados? É o que tô pensando agora… Acho que sim. E que nada mude.
Para que eu siga emocionada, crente na frase do pescoço do moço e, acima de tudo, me convidando pra um café outras vezes.
Muuuuitas vezes.

Amém.

Nane VoaLetra

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