…”Ou você prefere formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito, e vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota…” Theodore Roosevelt
Liz fechou o livro pensativa.
Nunca havia lido algo que tocasse tão fundo em suas convicções, mas logo esqueceu o assunto.
Era inflexível — ou forte, como preferia dizer…
Trabalhava muito e há dezesseis anos na área administrativa de um grupo familiar. Calculava preços, admitia pessoas, controlava custos, organizava as comemorações e ouvia os funcionários. Gostava daquilo tudo. Era organizada. Tinha a sua organização.
Acabara de completar 39 anos sem grandes comemorações. Não era “dada a festas e badalações”, como dizia.
Nunca havia namorado, não por falta de opção ou atributos pessoais. Era uma mulher bonita, inteligente e independente.
De emoções contidas e julgamentos bem estabelecidos, Liz habituara-se ao “não”. Não era de apontar dedos ou fazer discursos inflamados sobre a conduta dos outros. Apenas… julgava.
Observava e… julgava.
Observava os namoros alheios e pensava:
— “Não sei como ela aguenta. Ele é extravagante demais.”
— “Não sei como ele aguenta. Ela trabalha demais.”
— “Viu fulano, que corajoso, Liz? Pediu demissão e investiu tudo na pastelaria”, disse alguém.
— “É, vamos ver até onde vai…”, ela respondia.
— “Vamos viajar, Liz?” — “Não. Vou economizar.”
— “Vamos ao aniversário do Guto, Liz?”
— “Não, detesto dormir tarde.”
— “Não, longe demais.”
— “Não, cedo demais.”
— “Não, frio demais.”
— “Aqui em casa, não!”
— “Lá, não. Muito longe.”
Não, não, não!
E foi assim, durante os 44 anos seguintes…
Uma grande penumbra cinzenta que nunca conheceu vitórias nem derrotas.
Fim.
Triste fim.
@voaletra