Por quê?
Algo inconcluso, neste contexto, não é sinonimo de algo inacabado; é sinônimo de algo em permanente evolução.
A arte sempre será inconclusa. Poetas, escritores, músicos, artistas plásticos, compositores, filósofos, pensadores, são inconclusos.
Mas não só na arte se encontra inconclusos. Estudiosos, cientistas em diversas áreas do conhecimento, são inconclusos. Sabem, como ninguém, que suas conclusões não são definitivas. Nada é definitivo.
Parafraseando um filósofo, a Verdade é uma terra sem caminhos.
Só aqueles perfeitos não são inconclusos. Esses já sabem, nada têm a aprender. Ocupam-se de tons professorais e pouco contribuir. Mas não há perfeitos nas categorias dos inconclusos.
A inconclusão traz alegrias e tristezas, delícias e dores, sensibilidade e empatia. É poesia.
Carta do idealizador
Caros amigos,
Estou quase ficando velho; está por um triz. Então decidi aprender e reaprender aquilo que fiz aos meus 17 anos – sim, “Volver a los diecisiete, después de vivir un siglo, es como descifrar signos sin ser sabio competente…” – com a principal intenção de manter a minha cansada massa encefálica operacional. Não me agradou a ideia de estudar uma língua estrangeira; nunca fui bom nisso. Escrever novos livros? Já estão a caminho. Decidi, então, ir pelo caminho da tecnologia que foi o meu principal ganha-pão na maior parte da vida. Só que fazendo algo que nunca fiz: desenvolver um site e aprender as técnicas envolvidas.
Mas… o que fazer como estudo? Um blog pessoal? Não gostei. E as ideias foram surgindo. Até que me deparei com esta ideia: o site Inconclusos Online. Um outro fator também a motivou, a tristeza de muitos e grandes amigos – reais ou virtuais – estarem abandonando as redes sociais por não mais suportarem o ambiente, que se torna cada dia mais inóspito.
Por que não criar um espaço que pertença a todos? Sem algoritmos, sem fakenews, sem ódio e tantas conhecidas fobias? Um espaço de arte, cultura e informação em um tempo aonde impera o orgulho da ignorância? E que tenha como principal objetivo a divulgação dos trabalhos de todos?
Sim, mesmo sendo um quadradinho, que passou a vida escovando bits e bytes, jamais deixei as delícias do bom jornalismo, da literatura, da música, da poesia de lado.
Na primeira fase, o site trará um blog multiautoral e espaço para divulgação de suas obras; na segunda, um fórum para discussão sobre assuntos gerais, como política, economia, artes ou outros – onde teremos um local onde discutir e aprender civilizadamente.
Afinal, como digo na orelha do meu livro: “A fonte da juventude é o comportar-se como um eterno aprendiz frente a uma imensa utopia”.
Conto com vocês.
Abel Marques Ferreira
Música Incidental
Guardanapos de papel
Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retorcendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles veem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro
(Fito Páez/Coki Debernardi – Versão Carlos Sandroni / Léo Masliah)